William Palma Spinetti

e o mergulho adaptado.

Amante do mar e da natureza, William é mergulhador e instrutor de mergulho para pessoas com ou sem deficiência. Um hobby que se tornou profissão, ele nos conta sua trajetória emocionando com tamanha dedicação e profissionalismo.

Foto: Guilherme Martinez


 

Desde quando você é mergulhador e como o mergulho entrou em sua vida? 

Sempre gostei de água e como minha vó morava na praia o mar sempre foi uma paixão. Um belo dia um pessoal foi fazer uma apresentação, na empresa que eu trabalhava, sobre o que era o mergulho e desde então, isto em 1995, não parei mais. Fui desenvolvendo minhas habilidades e fazendo cursos até me tornar instrutor em 1999. No ano de 2000 eu saia da empresa multinacional em que trabalhava para  montar meu próprio centro de mergulho.

 

Você é instrutor de mergulho adaptado, nos conte porque desta escolha?

O meu despertar para o mergulho adaptado foi em 2002, logo no início da minha carreira como instrutor, tive um contato com uma mergulhadora (Olivia Fongaro) que tinha 15 anos de idade. Ela com paraplegia já era mergulhadora formada e estava mergulhando com um Instrutor amigo (Vicente Albanez).

Entre a data do meu curso de instrutor e a especialização foram 13 anos adquirindo experiências e formando mergulhadores.

Nesse tempo tive muito contato com pessoas com deficiência  fora d’água, apesar de minha experiência e vontade de mostrar o mundo subaquático a eles, não me arrisquei sem antes aprofundar meus conhecimentos quanto as PcDs. Pois minha única vivência com o mergulho adaptado tinha sido a Olivia. Quando em 2012 busquei fazer uma especialização com a HSA – Handicapped Scuba Association (www.hsascuba.com), uma organização Americana, e tive o prazer de conhecer uma pessoal querida que dedicou a vida dela a trabalhar com PcD e única Diretora de Cursos da HSA no Brasil, a Lúcia Sodré do Rio de janeiro.

 

 

William e sua maior paixão: o mar!

Foto: Acervo Pessoal

Como você enxerga o mergulho adaptado (acessível) na vida das pessoas com deficiência que se adentraram neste universo?

Se vc é uma pessoa com deficiência física, feche os olhos e imagine-se flutuando, imagine-se sem gravidade, sem o peso do seu corpo. Poder se deslocar para todos os lados, para cima, para baixo, para os lados com o mínimo esforço e a liberdade de deslocamento que somente no espaço você encontraria igual.

Se vc é uma pessoa com deficiência auditiva, o “silêncio é quebrado” com uma explosão de imagens, formas, cores e sensações que não encontramos em nenhum outro lugar do planeta Terra.

Se vc é uma pessoa com deficiência visual, você “irá ver” uma das melhores sensações já experimentada nesta vida. Imerso em água, respirando calmamente e sentindo o deslocamento da água em cada centímetro do seu corpo, ouvindo o silêncio do mundo subaquático e ao mesmo tempo escutando o barulhos dos seres marinhos.

Para uma pessoa com deficiência intelectual, explorar, desafiar, conhecer e conquistar um novo mundo pode ser uma das experiências mais incríveis.

Isso é apenas uma pequena parcela do que o mergulho pode oferecer aos PcDs. A atividade de mergulho é uma das poucas que realmente promove a inclusão. Todos estão literalmente no mesmo barco, não existe diferença entre crianças, adultos, idosos, pessoas com deficiência etnias ou classe social. Somos TODOS mergulhadores (as), aproveitando das mesmas coisas, conhecendo os mesmos lugares, fazendo novas amizades.

 

Qualquer deficiência pode praticar mergulho adaptado?

Sim. O que impede uma pessoa de mergulhar não é a sua deficiência e sim o quadro clínico. Qualquer pessoa, com ou sem deficiência, tem que ter um atestado médico dizendo que ela está apta a prática de mergulho autônomo (com cilindro).

 

Qual a diferença do mergulho para pessoas sem e com deficiência?

Não existe diferença, sempre utilizo uma frase que aprendi com a Lúcia Sodré.

“Para todas as dificuldades, existem soluções, e para todas as limitações, adaptações. Os impedimentos poderão não existir quando as pessoas estão dispostas a descobrir, juntas, a melhor forma de alcançar o que desejam.” Lucia Sodré.

 

Quais são os maiores obstáculos que você enxerga no mergulho adaptado no Brasil e no mundo?

Acredito que em geral, as mesmas do dia a dia de qualquer PcD. Falta de infraestrutura adequada/acessível, falta de profissionais capacitados para uma atividade específica. Existem poucas hospedagens e apenas 1 barco adaptado no Brasil. Quando eu questiono nossos parceiros comercias quanto a adaptar e melhorar acessibilidade, a primeira pergunta que me fazem é quantas pessoas eu levarei por mês ou ano para justificar a reforma. Acho isso um absurdo mas é a realidade capitalista. Às vezes acho que me iludo, tento acreditar que é apenas ignorância das pessoas como eu mesmo era ignorante de informação antes de começar a trabalhar com pessoas com deficiência. Gosto de acreditar que os brasileiros apenas não tem informação o suficiente.

No turismo de mergulho mundo afora é diferente, a questão de barcos ainda não se diferencia muito daqui do Brasil, mas hotéis, restaurantes,  ruas e até as pessoas me parecem muito mais preparadas a atender e a conviver com essas limitações de uma pessoas com deficiência.

 

Nos fale um pouco de sua experiência? O que vivenciou até hoje com o mergulho?

Sou mergulhador desde 1995, instrutor pela PADI desde 1999 e instrutor de mergulho adaptado desde 2012. Tenho pouco mais de 700 alunos formados oficialmente sendo 12 adaptados. Já realizei um dos meus sonhos que era fazer um mergulho em cada Oceano (Atlantico, Índico e Pacífico) e agora preciso conhecer alguns Mares, como Mar vermelho e outros.  Hoje sou proprietário de um Centro de Mergulho e Agência de Viagens em SP (www.scafosp.com.br).

 

Para os instrutores que desejam ingressar no mergulho adaptado, quais procedimentos necessários? 

Para quem quiser se capacitar para o mergulho adaptado é preciso ser instrutor já de uma credenciado reconhecido internacionalmente e depois buscar a especialização para tal. Um curso de especialização de aproximadamente 60horas.

Quem é William Palma Spinetti e qual recado você deixa para os leitores da Revista Digital Tendencia Inclusiva?

Sou um amante do mar, da natureza. Um hooby que virou profissão mas que continua sendo meu hobby predileto. Nos meus dias de folga e em minhas férias adivinha o que faço? Vou mergulhar! Mas eu tenho um vício, adoro ensinar as pessoas a mergulhar. Não posso ver uma pessoa com deficiência que já quero logo abordar e perguntar se ela quer mergulhar.

E fica a dica! Mergulhe Nesta Idéia, venha mergulhar!

por Adriana Buzelin em 26/05/2016

Fotos: Acervo Pessoal do Entrevistado

© Copyright Tendência Inclusiva  2014 / 2020