Sustentabilidade:  Bons Exemplos e Mudança de Vida

 

Nada como fechar o ano apresentando boas ideias e projetos que deram certo em prol do meio ambiente.

 

A união e a força de vontade modificaram algumas situações e nesta edição entrevistei Martha Regina Lopes Tocchetto e Maria Tereza Garcez que realizam trabalhos, os quais me chamaram atenção:

 

  • O Projeto RELona, em Santa Maria /RS, que transforma banners usados em bolsas.

  • O Ecoarte, desenvolvido por uma ex-bancária natural de Ubatuba e que hoje mora em Caraguatatuba / SP, que confecciona bolsas com caixinhas de leite.

Projeto RElona

Foto: Oficina realizada durante a Jornada Acadêmica da UFSM.

Como e quando surgiu a ideia de um trabalho relacionado a sustentabilidade?

 

O Projeto RElona surgiu devido a preocupação com os banner que são muito utilizados em eventos científicos e campanhas publicitárias. As lonas após cumprirem a função de comunicação, acabam no lixo. Não raramente, são encontradas em terrenos baldios e bueiros contribuindo para o agravamento de inundações e oferecendo riscos à fauna, pois podem ser confundidas com alimento. As lonas vinílicas são fabricadas com material plástico (PVC) reforçadas com fibra têxtil (poliéster) para aumentar a resistência mecânica, em especial ao rasgo. Estas características inviabilizam a reciclagem do material. O fato de trabalhar em uma universidade e sempre me deparar com este problema ao término de congressos, entendi que era necessário propor alguma alternativa para esta situação. Há 4 anos decidi então, fazer alguns testes e confeccionei uma sacola. Percebi ser uma ótima solução, pois além de prolongar a vida de um material que demora centenas de anos para se decompor, contribui para a redução do uso de sacolas descartáveis, é uma importante ferramenta de educação ambiental e de demonstração de responsabilidade de uma instituição de ensino. Comecei então, a pesquisar o material e outras iniciativas, a partir daí também a estruturar um projeto de extensão que contemplasse as questões socioambientais citadas. Desta forma, o Projeto RElona foi aprovado  no início do ano de 2015 no Fundo de Incentivo à Extensão - UFSM. Na sua concepção prevemos o desenvolvimento do mesmo em parceria com alguma instituição que tivessem reconhecido trabalho social, máquinas e voluntários para a costura das sacolas. Assim, estabeleceu-se a parceria com a AAPECAN (Associação de Apoio à Pessoa com Câncer), unidade Santa Maria - RS. 

 

Nos conte mais sobre o projeto RElona?

 

O projeto está sendo executado em parceria com Associação de Apoio à Pessoa com Câncer – AAPECAN - Santa Maria (RS) na forma de oficinas semanais realizadas na sede da mesma. As máquinas usadas são domésticas, fruto de doação da comunidade e em número de três. Os participantes são dois bolsistas, alunos de curso de graduação da UFSM, as voluntárias que são pessoas ligadas à  AAPECAN ou atenderam ao chamamento feito pela imprensa e a coordenação do projeto. A oficina tem como objetivo conhecer o material, seu potencial e suas peculiaridades bem como, as limitações para o reaproveitamento das lonas vinílicas. Ainda, são produzidos os moldes dos produtos a serem confeccionados; além de praticar os fundamentos básicos de costura necessários para dominar a técnica e produzir as peças que compõem as bolsas e sacolas para posterior montagem e costura. Durante a realização das oficinas há o constante cuidado para o aprimoramento da qualidade dos produtos visando a comercialização e/ou exposição dos mesmos em eventos, dentre outras atividades. A orientação para a confecção das bolsas e sacolas é feita pela equipe da UFSM (coordenação e bolsistas). Alguns estudos para o desenvolvimento de novos produtos são realizados por acadêmicos do curso de Desenho Industrial. A confecção das bolsas, sacolas e outros produtos é realizada principalmente pelas voluntárias que, em sua maioria, são pessoas que de alguma forma estão ou estiveram envolvidas com o câncer. As atividades desenvolvidas têm se revelado em oportunidades de motivação e de melhoria do ânimo das voluntárias. A oficina vai além do aprendizado de reaproveitamento de lonas de banner para a confecção de sacolas, repercute também na saúde das mesmas, pois o convívio, o desafio, o compromisso são fatores altamente motivadores e estimulantes. Os principais produtos confeccionados são sacolas de diferentes tamanhos para eventos da UFSM e também para entidades voltadas às questões ambientais, como ONGs, dentre outros. Os produtos são confeccionados mediante contato prévio do interessado e, posterior encomenda e fornecimento de material (cadarço, linha e outros). A partir daí,o trabalho é organizado de forma a cumprir o prazo para entrega. As lonas usadas nas sacolas são obtidas a partir de doação de empresas de comunicação visual e publicitárias que produzem os banners, produtoras de eventos artísticos e culturais, além de congressos científicos da própria UFSM e outras instituições de ensino da cidade. Buscamos o máximo aproveitamento do material de tal forma que, se possível, não seja gerado rejeito para posterior descarte. Os perfis de madeira são usados para a confecção de estrutura para organizadores, produto que desenvolvemos junto com a marcenaria da UFSM. Os de plástico temos encaminhado às empresas de comunicação para reuso.  Os cordões são usados para pendurar a etiqueta de identificação dos produtos e informar como foram produzidos. Além da valorização dos materiais, buscamos enaltecer a participação da voluntárias, para isso tornamos a entrega de uma encomenda um momento maior do que a integração entre a UFSM, a AAPECAN e a entidade ou setor que buscou os produtos RElona, mas verdadeiramente solene de tal forma, que elas percebam a importância de sua ação para o meio ambiente e para a sensibilização das pessoas contribuindo para a mudança de olhar para o que é descartado, pois muitas vezes, como no caso das lonas, é um material bonito, resistente, colorido com alto potencial de reuso e que pode se constituir inclusive, em fonte de renda. Estes momentos tem servido para a aproximação das voluntárias que, em sua maioria viam a universidade como um ambiente distante do seu cotidiano, de suas vidas e, para a UFSM tem sido uma oportunidade de demonstrar a importância de seu papel socioambiental contribuindo para a melhoria da realidade da comunidade em que está inserida.

Foto: Sacola dobrável - deu origem ao projeto. Ao ficar dobrada, o tamanho é de uma carteira, o que facilita estar sempre dentro da bolsa ou da pasta evitando, assim o uso de sacolas descartáveis.

Arquivo pessoal do Projeto

Há alguma parceria com empresas para fornecimento da matéria prima reaproveitável?

 

Diversas empresas encaminham lonas ao projeto, destacamos à Jungton Comunicação Visual e a Chili Produções Artísticas. Estas foram nossas primeiras incentivadoras e contribuíram para a divulgação do projeto junto a outras empresas. Algumas instituições como a Emater - RS; Senai - Centro do Estado, Caixa Econômica Federal (Superintendência -Santa Maria (RS). Ainda podemos citar instituições de ensino como Ulbra-Santa Maria, Instituto Federal Farroupilha; além de diversas unidades e eventos da Universidade Federal de Santa Maria- UFSM. Também há doadores particulares, como alunos e/ou docentes que participaram de um evento específico e fazem contato para doar o banner. 

 

O projeto não tem outra fonte de financiamento. Os materiais têm sido custeados, em parte, com a venda das sacolas. 

As máquinas de costura usadas são três e pertencem à AAPECAN. Estas máquinas são domésticas, o que dificulta muito o trabalho com lonas, pois o material é pouco flexível e não é maleável. Esta é uma das grandes dificuldades para o projeto, pois as dificuldades são grandes para a confecção das sacolas.

 

Qual a importância do RElona para a vida das pessoas e para o meio ambiente?

 

O Projeto RElona tem menos de um ano de execução, mas os resultados até então alcançados demonstram que ele possui um grande potencial social e ambiental. Social porque o projeto conquista dia a dia seus participantes, em especial as voluntárias. As oficinas têm se revestido de motivação para todos. A equipe se vê contagiada pela alegria que as oficinas têm trazido à vida das voluntárias.

Em relação aos doadores, constatamos que ao descobrirem o RElona, o apoio foi imediato daquelas empresas que já desenvolviam ações ambientais e que já buscavam demonstrar aos seus clientes preocupações com melhores práticas, cuidados com a natureza e, a sustentabilidade não era um ente estranho na organização.

 

Verifica-se também que o projeto tem contribuído para a mudança de conceito e do entendimento do que é lixo. Os produtos têm levado as pessoas a perceberem que nem sempre o que é inútil, baseado apenas na necessidade individual é válido, pois quando pensamos em termos coletivos, aquilo que é considerado lixo pode ser uma matéria prima capaz de gerar trabalho, renda e melhoria da condição social. As sacolas retornáveis representam um incentivo concreto à redução do uso de sacolas descartáveis, em especial as plásticas.

 

O uso das lonas para confecção de outros produtos vai além da valorização de um resíduo que possui elevado tempo de decomposição, contribui também para prolongar a vida útil das reservas do petróleo que é um recurso natural não renovável e é a principal fonte dos combustíveis utilizados no mundo atual. O mesmo pode-se afirmar em relação aos aterros, no momento em que os banners deixam de ser dispostos e são reutilizados. Acredita-se, por todos estes motivos, que os  produtos RElona possuem forte apelo social e ambiental, razão pela qual os consideramos ferramentas eficientes de educação ambiental.

 

A confecção de produtos com materiais oriundos do reaproveitamento, além do apelo ambiental atinge um público bastante exigente em que a sustentabilidade, o respeito à natureza, o consumo responsável, a reciclagem fazem parte não só de suas preocupações, mas de suas práticas e buscas diárias.

Foto: sacola de compras 

Arquivo pessoal do Projeto

Aspecto social

 

O projeto conquista dia a dia os participantes, em especial as voluntárias. As oficinas têm se revestido de motivação, pois a equipe se vê contagiada pela alegria que as mesmas trazem à vida das voluntárias. Os encontros semanais têm contribuído para o enfretamento da doença e para o retorno à vida normal. O fato das voluntárias sentirem-se úteis tem contribuído para melhora da autoestima, o que contribui para o fortalecimento pessoal e de sua família. Outro aspecto relevante é a oportunidade proporcionada às empresas envolvidas em demonstrar concretamente sua responsabilidade socioambiental.

 

O projeto acredita-se estar também contribuindo para que a UFSM demonstre que a sua preocupação vai além da formação de bons profissionais, mas com a efetiva responsabilidade socioambiental com a comunidade em que atua, no instante em que desenvolvem ações de extensão que buscam oferecer alternativas para a valorização das pessoas e do meio ambiente.

 

O Projeto RElona hoje, em nossa visão tornou-se mais do que uma alternativa para a destinação adequada de lonas de banner, mas uma alternativa de valorização de pessoas e de resíduos, tanto que costumamos defini-lo da seguinte forma: Projeto RElona – Valorizamos mais do que resíduos. Valorizamos pessoas. Estas considerações movem o projeto e movem a equipe executora para o alcance dos objetivos traçados, no aprimoramento contínuo dos mesmos e no alcance de resultados ainda mais significativos.

 

O projeto RElona recebeu prêmio estadual de Intraempreendedorismo Sustentável, concedido pela organização Net Impact-POA em outubro de 2015.

 

Equipe:

Marta Regina Lopes Tocchetto (coordenadora) - professora da UFSM

Aliar Anacleto Jung (bolsista) - aluno de graduação em Química Licenciatura

Juliana Gonçalves (bolsista) - aluna de graduação em Química Bacharelado

Juraci Terezinha Antunes Ribeiro (voluntária)

Vania Donicht (voluntária)

Lise Brasil (voluntária)

Norma Azevedo (voluntária)

Maria Antônia dos Santos (voluntária)

Equipe RElona e AAPECAN-Santa Maria em atividade de integração com a UFSM.

Foto: Arquivo pessoal do Projeto.

‘‘Quando pensamos em termos coletivos, aquilo que é considerado lixo pode ser uma matéria prima capaz

de gerar trabalho, renda e melhoria da condição social.’’

Maria Tereza e suas lindas bolsas feitas com caixinhas de leite.

 

‘’Consegui espalhar minhas idéias e fazer com que pessoas acreditem nelas e também as executem.’’ diz Maria Tereza. 

Entrevistamos Maria Tereza:

 

Como surgiu a ideia de fazer as bolsas com caixinhas de leite?

 

Trabalhei durante 15 anos como bancária, no ano de 2006 precisei me afastar da empresa devido a um stress ao qual me retirou de vez do mercado de trabalho. Adquiri uma insônia que realmente me chateava muito, sendo assim para ocupar meu tempo e principalmente como terapia, comecei fazendo embalagens para presente, utilizando as caixas de leite e as revestindo com filtros de café usado.

 

Percebi que ao juntar as caixas poderia fazer embalagens maiores e consequentemente vieram as bolsas. Os modelos foram surgindo e as idéias aumentado e assim consegui criar uma técnica própria de como fazer bolsas de caixas de leite.

 

No início as bolsas eram presenteadas a familiares e amigos que ao usa-las faziam  propaganda divulgando o trabalho, logo as encomendas foram chegando e a necessidade de comercializar minhas bolsas foi inevitável.


Em 2010 com a ajuda do meu esposo que é técnico ambiental, foi criado o Blog Ecoarte - Bolsas de Caixas de Leite, então daí para frente vieram os vídeos no Youtube, tenho 05 vídeos somando as visualizações passam de 1.000.000, hoje conto com 07 volumes de Apostilas, são e-books registrados na Biblioteca Nacional do Brasil, com seus respectivos números de ISBN, onde envio para todo Brasil chegando a envia-los também para fora do Pais. Não tenho mais insônia...rsrrs...mas sim, um objetivo e um olhar cheio de esperança no futuro o qual a sustentabilidade caminha ao lado.

‘’Sempre enfatizo nas oficinas e palestras, recicle primeiro o seu lixo, depois ensine seus vizinhos, parentes e amigos. Lembro eu não tenho uma fábrica de bolsas, eu ensino e divulgo uma técnica, ao qual pessoas podem reciclar, reaproveitar e obter renda.’’ 

Palavras de Maria Tereza.

Foto: Bolsa fabricada por Maria Tereza, feita com caixinha de leite. Arquivo pessoal

Há alguma parceria para que você faça a coleta das caixinhas?

 

Todas as bolsas feitas por mim são de caixas vindas de parentes, amigos e da minha própria casa, sempre enfatizo nas oficinas e palestras, recicle primeiro o seu lixo, depois ensine seus vizinhos, parentes e amigos. Lembro eu não tenho uma fábrica de bolsas, eu ensino e divulgo uma técnica, ao qual pessoas podem reciclar, reaproveitar, reutilizar e obter rendas.


Hoje praticamente não comercializo mais minhas bolsas, me dedico a novas criações, novos  modelos e a passar minhas ideias e técnicas adiante, através de palestras, workshop, Apostilas e oficinas.


Tem também o Projeto Reciclando Vidas de minha autoria e é calcado nos 03 pilares da sustentabilidade, reduzir, reciclar e reaproveitar, é um projeto itinerante e visa levar a comunidades carentes uma forma de obter renda extra, em anexo segue uma cópia do projeto para que tenha um melhor entendimento.

Quantas trabalham com você?

 

Devido a não ser uma fábrica ou cooperativa não trabalho no momento com ninguém.

Foto: Bolsa fabricada por Maria Tereza, feita com caixinha de leite – Arquivo pessoal

Você dá algum curso?

 

Sim, faço oficinas dentro do Projeto Reciclando Vidas, Workshops, palestras e tenho as apostilas – e-books, arquivos em PDF que são enviadas via e-mail, são cuidadosamente desenvolvidas, pois trazem um passo a passo detalhado, com linguajar simples e de fácil assimilação, contem na sua maioria fotos explicativas com detalhes de cada passo a ser executado, para alunas que adquirem as apostilas e ainda ficam com dúvidas, dou assistência através de e-mails, conversação via internet, redes sociais... Podendo assim atender em várias partes do país e também fora.


Qual a importância deste trabalho para a sua vida pessoal e para o meio ambiente?

 

Quando comecei com este meu trabalho reciclei uma caixa de leite, depois mais uma e mais uma e assim foi simples e fácil. Hoje minha ação deixou de ser pontual e está se tornando global, consegui espalhar minhas ideias e fazer com que pessoas acreditem nelas e também as executem.

 

Acredito que a sustentabilidade além de ser importante, é imprescindível para a vida do ser humano, como diz uma bióloga aqui no nosso litoral, ‘’nós não estamos acima, ao lado ou abaixo do meio ambiente, nós somos o meio ambiente, funciona como um todo, fazemos parte dele, sem meio ambiente não existe ser humano’’. Temos obrigação moral, existencial em preservá-lo.

Foto: Linda bolsa com motivo floral

Arquivo pessoal

Oportunidade, motivação, mudança de hábito e preservação do meio ambiente. Não importa os seus objetivos, o importante é traçar caminhos e metas para alcançá-los.

 

Nesta matéria, apresentei pessoas que podem se tornar um estímulo para uma mudança de vida e de atitude em relação ao planeta. Minha intenção foi mostrar que podemos sim, nos engajarmos na questão da sustentabilidade e ainda obtermos lucros com nosso trabalho.

 

Desejo a todos os leitores boas festas e um 2016 com muita criatividade e bons exemplos.

 

Um abraço.

 

por Lícia Lima em 25/12/2015

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