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Acessibilidade deveria ser sinônimo de Igualdade!

Caroline Marques foi ao show da dupla sertaneja Edson & Hudson no dia 20 de março na casa de show Rancho do Serjão e nos conta como foi enfrentar a falta de acessibilidade e o despreparo do local para receber pessoas com deficiência: 

 

“Chegando à casa de show Rancho do Serjão na unidade de São Bernardo do Campo em SP, não peguei a fila para a entrada nos guichês, pois como dita a lei, temos prioridade de atendimento e filas preferenciais para pessoas com deficiência.

 

Havia uma rampa de acessibilidade na entrada da casa e esta era toda de calçada até o guichê. Assim que peguei minha comanda, fui revistada e em seguida liberada para a entrada na casa. Quando entrei não havia nenhum bombeiro ou segurança que me acompanhasse até o local destinado a pessoas com deficiência assistirem aos shows. Eu não conseguia me locomover, as pessoas não tinham respeito, não davam me davam licença para passar e a casa estava lotada.

 

Pedi informação a um segurança para saber onde seria o local que eu pudesse ficar e ele me falou que não tinha local especifico. Eu poderia ficar aonde quisesse. Impossível!

 

A casa de shows estava realmente lotada, sem condições de locomoção e sem visualização.

 

Foi aí que resolvi sair e conversar com outro segurança que estava na porta da entrada. Ele pediu para que eu esperasse, pois chamaria o gerente do estabelecimento. O gerente, muito educado, me atendeu, e pude explicar toda a situação para ele. Foi quando ele me informou que realmente não havia lugar especifico para pessoas com deficiência e que lá era igualdade para todos e por isso eu teria que assistir ao show no meio de todos. Isso é igualdade?

 

Questionei e argumentei da impossibilidade de assistir o show sem ter conforto e visibilidade. Expliquei que era impossível afinal como poderia assistir ao show com todos em pé, na minha frente e naquela confusão?!

 

Ele concluiu dizendo que era a desvantagem para pessoas baixas e cadeirantes. Porém nem explicando sobre a lei de acessibilidade a casa, por não ter feito um local reservado, não teria mais o que fazer naquele momento e eu só poderia ficar na pista.

 

A lei diz:

“Todos os locais que recebam” mais de 100 pessoas por dia ou aqueles destinados a qualquer outro uso e que tenham capacidade superior a 600 pessoas por dia deverão atender ao que dispõe a NBR (Norma Técnica Brasileira) 9050/04 sobre as disposições especiais para as pessoas com deficiência. Deste modo, qualquer imóvel que se enquadre nessa lei deverá dispor de acessos, banheiros, rampas, elevadores, sinalização, entre as adaptações necessárias para permitir o acesso, circulação e permanência de pessoas com deficiência. A Lei que trata deste assunto é a 11.345/93, regulamentada pelo Decreto 45.122/04.

 

Cinemas, teatros, casas de espetáculos, casa de shows e estádios de futebol também são obrigados a garantir o acesso das pessoas com deficiência física. Muitos desses locais já cumprem a legislação (Lei 11.424/93, regulamentada pelo Decreto 45.122/04) referente à acessibilidade. No entanto, não oferecem condições para que essas pessoas tenham boa visibilidade da programação a ser exibida. Outra lei, a 12.815/99, dá nova redação ao artigo 1º da Lei 11.424/93 dispondo que, além das exigências anteriores, esses estabelecimentos estão obrigados a garantir assentos e locais reservados, devidamente identificados, para fácil e boa visualização do espetáculo pelas pessoas com deficiência.”

 

Fui até o camarim do Edson & Hudson, em seguida com muita dificuldade um segurança me colocou em frente ao palco para que eu pudesse assistir ao show. Naquele momento meus sentimentos se misturavam, olhava de um lado para o outro e não enxergava nada, a não ser o povo me empurrando. Até o momento que as pessoas caíram sobre mim, eu abaixei para me proteger, quando levantei comecei a chorar por conta da falta de respeito das pessoas com o próximo e pela casa de show de não ter uma área para pessoas com deficiência assistirem ao show tranquilamente. Esse momento foi muito humilhante.

 

Quando o show acabou, uma nova uma confusão: agora era para sair!

 

Os seguranças seguravam as pessoas não liberando a saída, liberavam cinco pessoas por vez para pagar as comandas, enquanto isso as pessoas ficavam se empurrando. De tanto as pessoas gritarem que tinha uma pessoa com cadeira de rodas no meio da confusão, um segurança veio e auxiliou minha saída até o guichê.

 

Quando estava do lado de fora da casa o gerente, novamente gentil, veio me perguntar o que tinha achado do show. Expliquei todo o ocorrido e ele respondeu que a minha insatisfação era construtiva para o estabelecimento, pois ninguém nunca havia reclamado antes e por isso ele acreditava que estava tudo perfeito.

 

Foi mostrando minha insatisfação que pude mostrar o quanto é importante e necessário reivindicar pelos nossos direitos. E assim pude também mostrar que a lei deve ser cumprida para que possamos nos divertir como todos. Isto sim é igualdade!

 

Espero que no próximo show que eu for no Rancho do Serjão já tenham providenciado um local especifico para nós pessoas com deficiência.”

 

 

O Rancho do Serjão (unidade de São Bernardo do Campo) se localiza na Avenida Kennedy, 792 - São Bernardo do Campo - São Paulo.

 

 

 

por Caroline Marques

 

 

Fotos tiradas para Conexão Inclusiva da revista digital Tendência Inclusiva.

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