Márcia Gori, deficiência e sexualidade.

por Adriana Buzelin

Márcia Gori é uma mulher única. Grande referência quando o assunto é o gênero feminino e suas nuances. Márcia sempre engajada é também presidente e criadora da ONG Essas Mulheres. Em suas palestras, Márcia defende direitos e discursa sobre o universo feminismo e sua sexualidade. Com muito prazer, esta primeira edição da Tendência Inclusiva, ela é destaque na matéria exclusiva.

Márcia Gori é militante feminista e pessoa com deficiência.  A ONG Essas Mulheres na qual é criadora surgiu, desde 13 de julho de 2013, a partir de pesquisas, de denúncias sobre violência doméstica, psicológica e emocional, trazendo dúvidas sobre tráfico destas para as mais diversas finalidades obscuras e hediondas, muitas das ocasiões essas mulheres, meninas e jovens com deficiência sofrem todo tipo de sortilégio e não fazem a denúncia aos órgãos competentes, por serem agredidas pelos seus cuidadores, parentes e efetivando a impunidade devido ao silêncio por medo de serem abandonadas. Com a criação da organização busca aprimorar seus serviços, juntamente com suas coordenadoras, buscar efetivar trabalho em rede de cooperação com organizações congêneres, parceiros e financiadores.

 

Sempre conectada às transformações do mundo moderno, respeitando e valorizando as particularidades do público alvo e o contexto sócio-econômico-familiar ao qual está inserido, a Ong Essas mulheres tem o compromisso será de trazer soluções para as necessidades dessas pessoas, o empoderamento e qualidade de vida, assim como a autoestima e a garantia dos seus direitos. A organização desenvolve um trabalho de inclusão apoiado em uma linha de programas de promoção da cidadania, dos direitos sexuais e reprodutivos, da ética, dos Direitos Humanos, da democracia, implantar, promover os assistentes eróticos e de outros valores universais com mulheres, meninas e jovens com deficiência, centrado no eixo família-comunidade, de forma a prover melhoria na qualidade de vida, assim como facilitar o processo de inclusão social e resgate da cidadania.

 

Trabalhando em 3 vertentes: a questão da Violência, Sexualidade subdividida em Direitos Sexuais e Reprodutivos e os Assistentes Eróticos, Márcia e suas coordenadoras acreditam ter pela frente anos de trabalhos e conscientização social, pois são temas polêmicos, altamente importantes. 

 

Nascida em Barretos/SP, foi morar em São José do Rio Preto/SP com a avó materna e os irmãos de sua mãe, aos 11 meses de idade. Márcia acredita que sua militancia surgiu quando contraiu Pólio, pois havia o fator “sobreviver a qualquer custo”. O que mais a comove são pessoas com deficiência sem acesso aos seus direitos, falta de conhecimento, com pessoas de má-fé se beneficiando da dor deles, se dizendo amigos e “bem-feitores”.  Sua mãe trabalhava muito, ajudando a criar os irmãos menores devido à viuvez prematura da avó.


Casada há 26 anos, tem duas filhas de 23 e 24 anos. Não teve dificuldades para estudar na rede pública de ensino, sempre foi bem acolhida por alunos e professores. Em 2003 foi aprovada num concurso público de São José do Rio Preto e ainda atua como servidora pública na Secretaria Municipal de Saúde e Higiene. 

Na área da pessoa com deficiência, já teve várias atividades, como membro do Conselho Estadual, presidente do Conselho Municipal de Rio Preto, idealizadora de simpósios e seminários sobre o tema, como o Simpósio sobre Sexualidade da Pessoa com Deficiência na Reatech, ajudou a coordenar o "Encontro Nacional de Políticas Públicas para Mulher com Deficiência", além de ser capacitadora, palestrante, colunista em publicações especializadas, colunista da Revista Reação, idealizadora da Assessoria de Direitos Humanos ADH Orientação e Capacitação e presidente-fundadora da ONG "Essas Mulheres". Com tantas atividades, ainda encontra tempo para ser modelo fotográfico da Agência Kica de Castro Fotografias, desde 2010. 

 

Coordena desde o ano de 2010 o seminário Sexualidade na Vida da Pessoa com Deficiência, que acontece anualmente na segunda maior feira internacional para pessoas com deficiência, a REATECH , assim como neste mesmo ano foi modelo da agência de modelos Kica de Castro, que produziu fotografias para uma campanha sobre devoteismo, lançando a discussão sobre este tema polêmico.

"Este ensaio fotográfico ocorreu por parte da Agência Kica de Castro em 2010 com o intuito de causar um impacto sobre este assunto, com a expectativa de trazer os devotees ao debate, haja vista que eles ou elas estão ligados profundamente à nossa sexualidade, devido ao desejo que despertamos nestas pessoas. Os devotees são vistos como pessoas sem escrúpulos, que abusam de nossos “bons” sentimentos, ingenuidade, enfim, somos vistos pela sociedade como seres assexuados, infantilizados e eles são aproveitadores, causando um certo receio deles demonstrarem normalmente este sentimento. Este ensaio foi mais além do que pensávamos de inicio, causou um “boom”, saiu de primeira mão na Revista REAÇÃO, esgotando todas as edições, como também um grande debate no Orkut em muitas comunidades, indo parar fora do Brasil, alcançando o objetivo da sensualidade e sexualidade (cá pra nós, o Faraoni é um Deus de beleza... rsrsrs)" relata Márcia com ótimo bom humor.

 

Abaixo uma das fotos da campanha figurou as páginas da Revista Reação da qual Márcia Gori, desde 2009, na coluna Mulher.

Márcia é uma mulher muito ousada e dinâmica. Cheia de tatuagens, alias paixão minha também, Márcia me conta que as tatuagens somente começaram aos 40 anos, depois de muito bem pensadas, consciente que poderiam trazer problemas com discriminação, apesar de não se preocupar muito com isso. "Haja vista que já estou sentada em cima de uma cadeira de rodas e também sou mulher" brinca Márcia.

 

Uma de suas principais linhas de atuação de Márcia Gori é em relação à sexualidade e ela percebe que a questão da sexualidade deve ser vista com naturalidade, pois além de ser fisiológico e um dos Direitos Humanos que temos sem respeito algum, porque sempre se ouve alguém contar uma história de laqueadura em nossas mulheres, sem permissão ou conhecimento delas, por ser uma decisão familiar sem consultar a quem é realmente de direito. 

 

Em uma entrevista dada para a 100 edição da Revista Reação, Márcia fala: "toda mulher com deficiência ou não tem o direito sobre o seu corpo, mesmo que isso venha a contrariar a família. Só por ela necessitar de maiores cuidados isso não a faz menos que ninguém ou ser submissa às vontades alheias. Este ano nossa ONG participou da Erótika Fair, a convite da organização do evento meio em cima da hora, mas como temos parceria com a Kica de Castro e a R7 Sensual, a ONG contratou as modelos com deficiência da Agência que circularam na feira com próteses, cadeiras de rodas causando todo tipo de fetiche masculino e feminino, levando as pessoas em nosso estande para tirarem todas as dúvidas. Nesse momento, muitos descobriram que não somos assexuadas."

 

Para Márcia, texto ainda extraído da sua entrevista para Revista Reação, existe uma grande discriminalização e invibilidade das mulheres com deficiência. E vai além! Ela acredita que no nosso segmento são pessoas como todas as outras, a única coisa que tem a mais é a deficiência, sabemos que tudo o que é diferente o preconceito é instalado de forma cruel. A deficiência não nos humaniza mais do que os outros, ao contrário, em muitos casos endurecem, prostituem, invejam, traem, matam, roubam, somos iguais a quaisquer seres humanos. A mulher com deficiência não tem informações suficientes sobre o seu corpo, sua sexualidade, seus direitos reprodutivos... somos sabedores que elas sofrem todo tipo de violência, principalmente no trabalho, pois muitos se sentem no direito de assediá-las sexualmente e psicologicamente, tornando-se quase impossível de provar, porque elas têm medo e acreditam que ficarão sem cuidados ou novas oportunidades. E o silêncio gera a impunidade. O Brasil ainda é machista, sexista e somos violentadas mais que qualquer outra mulher, devido a nossa vulnerabilidade, medo de perdermos quem cuida de nós e o capacitismo (termo utilizado para descrever a discriminação, opressão e abuso advindos da noção de que pessoas com deficiência são inferiores às sem deficiência), que está entranhado dentro da sociedade. 

 

Já na área das políticas públicas Márcia acredita serem pouquíssimas, porque ainda dependem muito de políticas governamentais em todas as esferas, mesmo que o Governo Federal determine que sejam obrigatórias, muitos gestores não se sentem tão pressionados, pois alegam que não somos as únicas que necessitamos de prioridades, porque eles têm que governar para todos, imparcialmente. Cada dia se ouve todos os tipos de discursos e ficamos abismadas com a falta de envolvimento e sensibilidade com as pessoas em situação de vulnerabilidade. O próprio Movimento de Mulheres não nos reconhece e não tem ideia das nossas necessidades, tudo parte de uma premissa que todos sabem, porém quem realmente sente todo tipo de pressão e mazelas somos nós que temos as nossas especificidades, então não adianta ter políticas públicas sem nossa presença ou políticas de gabinete, porque não surtirão efeitos positivos, a nossa presença é fundamental. 

A proposta é uma articulação da ONG junto com alguns parlamentares.

 

"Estamos sintonizadas com as mudanças globais em relação a direitos da pessoa com deficiência e tivemos conhecimento, algum tempo atrás, que mais de seis países na Europa já introduziram este tipo de serviço com muito sucesso. Acreditamos que será uma inovação e quebra de barreiras atitudinais na questão de bem estar e autoestima de nosso segmento, já que inicialmente trabalharemos com deficiência de alta complexidade. Vejo mais como terapia corporal, emocional e psicologia, visto que a ideia será de resgate do ser humano, amor próprio e saúde em todos os quesitos."- relata Márcia. 

 

Márcia Gori por Kica de Castro

A ONG recebe todas as contribuições possíveis, pois se trata de um trabalho inovador e pioneiro dentro dessa linha de atuação., através do link http://www.kickante.com.br/campanhas/mulheres-sem-limites. E o plano de recompensa para quem ajuda um certificado digital de doador e agradecimentos na fanpage da ONG no facebook (https://www.facebook.com/OngEssasMulheres).

 

O Projeto Busca:

- Organizar cursos, treinamentos, palestras, seminários, congressos;

- Desenvolver programas de capacitação e atualização profissional;

- Desenvolver programas em parceria com faculdades, universidades, escolas técnicas e profissionalizantes;

- Desenvolver novos modelos experimentais não lucrativas de produção, comércio, emprego e crédito;

- Desenvolver programas de promoção da cidadania, dos direitos sexuais e reprodutivos, da ética, dos Direitos Humanos, da democracia e de outros valores universais;

- Integrar com programas oficiais do setor governamental;

- Desenvolver estudo, pesquisa e tecnologia;

- Implantar, promover os assistente eróticos.

 

O valor arrecadado nessa campanha servirá para o início dessas ações fora da área virtual, por isso a ONG conta com a sua ajuda e participação.

 

Para conhecer um pouco mais sobre a ONG Essas Mulheres acesse o site oficial.

Fotos: Kica de Castro

Fonte: Revista Reação/ ONG Essas Mulheres

 

por Adriana Buzelin em 13/11/14.

 

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