Maria Inês Chaves

e a Ong O Proação

 

Uma mulher idealista, com um forte propósito de ajudar o ser humano, Maria Inês Chaves é uma das idealizadoras da Ong O Proação. Entidade sem fins lucrativos que desenvolve um programa de educação complementar. Através do Projeto Ritmo e Movimento, atendem mais de 100 crianças da comunidade Nova Vista, com aulas de dança e a implantação de um Corpo de Baile. Este tem sido um grande caminho para a promoção da autoestima e realização pessoal, além de estimular o aprendizado das disciplinas formais e assegurar um crescimento profissional. O Proação incorporou em suas ações e missão duas Casas de Acolhimento no bairro Prado: Filhos de Nazaré - em parceria com a Jornada Solidária, abrigando crianças de zero a sete anos, retiradas de seus lares por determinação judicial, e Mãos de Maria - casa pioneira no Estado de Minas Gerais, que acolhe somente bebês de zero a doze meses, em situação similar.

Como uma das idealizadoras da ONG “O Proação”, conte-nos, então, como ela surgiu e qual o trabalho desenvolvido por ela. Fale-nos um pouco, também, da equipe de “O Proação”.

 

“O Proação” não surgiu, Adriana. Apenas deu corpo ao atendimento de uma demanda inarredável da consciência, esta que a nomenclatura de sua Revista resume de forma, absolutamente, sensível. Há mesmo uma tendência inclusiva, comprovada, não é de hoje, e é impossível que não assumamos, cada um de nós e toda a coletividade, a responsabilidade social que nos cabe. É, exatamente, a inércia em relação a este propósito que tem imputado à sociedade e a todo o Planeta a degenerescência a que temos assistido. O slogan de “O Proação” é: ser humano precisa ser humano. Portanto, independentemente de quem sejamos nós, a Razão proclama a assunção de um compromisso que temos em relação a nós mesmos e que só se realiza na relação com os outros, o de nos assumirmos sendo o que dizemos que somos, portanto, humanos. Todo mundo sabe o que isto significa. Assim, a partir desta consciência, real e verdadeira, “O Proação” entendeu de desenvolver um trabalho efetivo de inclusão, de crianças e adolescentes em risco social e de vida. Depois, fundou, bem como assumiu, uma e outra casa de acolhimento de bebês de 0 a 12 meses e crianças até 7 anos, abandonadas. De toda forma, ainda que hercúleo o trabalho sem fins lucrativos numa sociedade que, apesar de tudo, admite uma estrutura capitalista selvagem, que se explica na deglutição do Outro em prol da satisfação de apetites econômico-financeiros vorazes de bichos-homens, a verdadeira angústia de “O Proação” não são as crianças que tem, mas as milhares que não consegue acolher.

 

Ângela Proença, a quem assisto na presidência da entidade como vice, e as diretoras Márcia Prudente e Ana Géo damo-nos todos os dias à consecução do ideário racional de busca pela eficácia dos direitos humanos para os pequeninos cidadãos a quem damos guarida ou, se preferir à dicção religiosa, buscamos pela coerência que nos autorize dizer-nos de nós que “imagem e semelhança” de Deus. A equipe de “O Proação” e todo um grupo de profissionais que a acompanha assumiu esta tendência inclusiva, certos de que é chegada a hora deste reconhecimento do homem como ser humano, subjetiva e objetivamente. Promovemos tudo quanto possa preservar e garantir às nossas crianças sua dignidade, honra, integridade física, mental e emocional, saúde, educação, lazer, autoestima elevada e, principalmente, uma crença inquebrantável num futuro sempre melhor e na humanidade, na dimensão absoluta desta palavra.

Ângela Proença e Maria Inês

Fotos: acervo do entrevistado

Como você enxerga os eventos promovidos pela ONG “O Proação” realizados anualmente em Belo Horizonte? Você acredita que desperta a reflexão dos cidadãos para o tema da inclusão social?

 

Como lhe disse, a tendência inclusiva que a consciência requer não deixa escapar sequer a moda, pareça ela, num primeiro momento, superficialidade, por cuidar mesmo da superfície de nós, alicerçada que esteja sobre a aparência. “O Proação Fashion Day”, que acontece em Belo Horizonte há anos, ampara a distensão da ideia do belo que, em sua totalidade, envolve também a essência. A essência humana. Esta que recende do ser humano e não do bicho-homem, ainda que sejam ambos o mesmo, mas que para ser reconhecidos belos, ética e esteticamente, tem de afinar-se um com o outro.  O caso é que intenta “O Proação” lançar, anualmente, o ser humano do homem na moda para que, afinal, possamos desfilar, definitivamente, nossa totalidade, aparência e essência, beleza interior e exterior, por compromisso real com a verdadeira beleza e o bom gosto.

 

Noutros eventos, convolamos a sociedade à participação, tanto haja quem queira nos ajudar em nossa intervenção na face do mundo pela realização do belo. Bazares, festival de ballet de nossas crianças, Natal Solidário, tudo quanto possa tornar a vida mais prazerosa e proporcionar mais alegria, para as crianças e os adolescentes e para todos nós e quantos acreditem em nosso trabalho ou dele se aproveitem.

 

Quanto ao despertar da reflexão, neste caso, é preciso olhá-la tanto adstrita à aparência como à essência, perceba-se. A imagem de si refletida, bela, para que seja vista; dando-se a enxergar, ainda, enquanto beleza, na volta da consciência sobre seu próprio conteúdo. Estar na moda, hoje, é, também, estar afinado e em harmonia não só com o aspecto com que se apresenta, socialmente, mas com sua postura diante do mundo, responsavelmente. Com certeza, quem não participar do percurso de inclusão social ficará à margem, quase marginal, seja atentar-se contra si mesmo, excluindo-se como protagonista de uma história que o quer humano.

VII EDIÇÃO DO PROAÇÃO FASHION DAY

No dia 20/08 foi realizado no Grande Teatro Palácio das Artes a VII edição do Proação Fashion Day, que contou com várias presenças ilustres e com um belo show da Banda Jota Quest e a apresentação do corpo de baile da entidade.

”Nós abraçamos, abrace você também.”

Você está lançando o livro Sacia-Perereca. Como surgiu o livro e sobre o que ele fala?

 

Sacia-Perereca está sendo relançada, porquanto esteja em sua segunda edição. Há dezoito anos, brincando com o nome do Saci-Pererê, vislumbrando dele a companhia feminina, criei a personagem, intelectualmente. A criação da imagem ficou por conta de Son Salvador. Foi como por uma filha no colo, também, com a genética linda de seu pai. Meu único pedido a ele foi que a fizesse loura para acompanhar o Saci, negro. Chegara a hora de o diferente ser ariano. Então é isto. Sacia-Perereca é um Saci-Pererê menina. Só que ao invés de ter uma perna, tem três, o que justifica chamá-la perereca, por pular mais que sapo. Amigos, Sacia e Saci brincam de ter duas pernas cada um, quando se dão os braços e uma perna dela serve para ele. De toda forma, gostam mesmo é de ser como são. Quando alguém ri achando-a esquisita, ela ri mais porque é seu excesso que a permite fazer o que as pessoas comuns não fazem e estender-se no auxílio daquele para quem alguma coisa falta. A ideia de complementaridade potencializa o de igualdade, dado que precisamos igualmente uns dos outros. Ela e Saci tem um amigo de cadeira de rodas, o Sá. Este é sabido e o líder da turma, tantas ideias tem para criar brincadeiras. Veja-se que quando se perde sílaba, perde-se perna e a ganhando, perna se assoma. Como o Saci-Pererê nunca frequentou o imaginário folclórico brasileiro como um amputado, o Sá vem buscar pela representação, ao lado dela, do diferente porque, afinal, a diferença o que nos revela a nós nossa igualdade.  Todos somos iguais porque somos todos diferentes. A questão do deficiente físico, do diferente em todas as possibilidades manifestas dele, do bullying, da inclusão social, do grande mérito do Brasil nas paralimpíadas, sem o devido investimento para apresentar-se campeão, não eram questões de quando o Saci foi criado. Ademais, há o fato de a Sacia, o Saci e o Sá terem um amigo de duas pernas, o Saciado. E tornando-se muito amigos, montaram um grupo de rock, “sasacional”, o SASA SASA. Um dia, na hora do show, começaram a voar. Todos aplaudiram achando que era efeito especial. Efeito especial que nada! Foi nesta hora que perceberam que os quatro eram anjos porque SASA SASA de trás para frente é ASAS ASAS. Então, voaram até o céu e hoje, lá do espetáculo da natureza, estão olhando as crianças de todas as pernas, e cores, e jeitos, e alegrias, porque, afinal, todas as crianças são iguais... Até as que tem asas. Assim, Sacia-Perereca me apresentou o universo da diferença, para que eu mesma me identificasse igual, vindo a tornar-se representante de “O Proação”, fundado sobre o tripé cultura, arte e lazer, do que é, com suas três pernas, a logomarca, seguida do slogan: ser humano precisa ser humano que é mesmo tanto a demanda como a proposição dela.

O que você acha necessário mudar na consciência dos cidadãos para termos a real inclusão social no sentido literal da palavra?

 

Simples. É preciso ser humilde. Entenda. A humildade é a consciência absoluta da igualdade. Em sua origem etimológica tem-se que vem de húmus, terra, a certeza de que viemos do pó e ao pó retornaremos, sejamos nós quem formos. É necessária a consciência de que o ser humano precisa realizar-se sendo, um através do outro, na infinita multiplicidade com que se apresenta, visto que tem, sobre o véu da aparência que o destoa, a mesma essência. A essência humana, por exemplo, não releva a diferença, mas, antes, reconhece nela nossa igualdade. Todos somos diferentes uns dos outros. A real inclusão nem assim se definirá porque ninguém precisa ser incluído aonde pertence, à humanidade, senão enquanto ela for definida apenas como conjunto de bichos-homens e não como expansão da essência em sua totalidade. A aparência dá-se a ver, não a enxergar, como seria essencial percebermos. Sabe a expressão bíblica que se refere a preocupações com o cisco no olho alheio, sem dar-se com a trava no próprio? O ponto de vista viciou o olhar. Garantido o nascimento com vida, que nos lembremos das crianças, em toda sua pluralidade, e de nós, que somos só crianças crescidas, e de tudo quanto a vida exige para realizar-se. Vida não é mera condição fisiológica de sobrevivência e todos os direitos humanos que ela clama para realizar-se são de todos.  Chega de nos dizermos humanos, sem qualquer compromisso com isso, e irmos às igrejas, e postarmo-nos símiles a Deus, como se nos fosse possível, sem a assunção de uma fé com obras. O Planeta, o país, nossas famílias, o meio ambiente e nós mesmos rogamos por esta consciência.

 

Quem é Maria Inês e qual recado você deixa para os leitores da Tendência Inclusiva?

 

Aqui, gostaria de adiantar um parêntesis. Perguntou-me quem sou, portanto, ainda que técnicas aprendidas e apreendidas me deixassem dizer o que faço para apresentar-me, não seria eu. Assim, digo de mim que sou poeta e sou filósofa e, primordialmente, sou humana.  Ser humano é exigência inescapável por definição de nós. E agora, da forma como as coisas e os homens se puseram no mundo, é a nossa única saída.

 

Um recado, apenas, o de não permitirem nada que se oponha a esta tendência inclusiva e fazerem tudo quanto possam pelo compromisso de ser humano, o Verbo tornado carne, essencialmente. Deixemos, então, o mundo rescender o aroma de Deus.

 

 

Contato: Rua Cuiabá 341| Bairro PradoBelo Horizonte - MG

Entre em contato através do telefone : (31) 3658-5798 ou e-mail: proacao.comunicacao@gmail.com

por Adriana Buzelin em 25/12/2015

 

Fotos e release: Arquivos do Entrevistado

 

 

 

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