Marcelo Xavier

por Adriana Buzelin

Multiartista, Marcelo Xavier é escritor, cenógrafo, figurinista, autor de livros - sendo a maioria infantis - e criador do bloco de rua Todo Mundo Cabe no Mundo.  Com uma trajetória construída durante 50 anos, Marcelo Xavier quer deixar um legado para a educação infantil. Se encante com um pouco da história deste artista.

Marcelo Xavier / Foto: Sylvio Coutinho

Marcelo, nos conte um pouco de como a arte surgiu em sua vida a ponto de atualmente você ser um multiartista se tornando escritor, cenógrafo, figurinista e autor de livros infantis?

 

A arte chegou para mim de mansinho, na minha infância em Vitória. Foi se mostrando disfarçada em bonecos de barro, nas brincadeiras de carrinho no quintal de um amigo, fazendo estradas, pontes, garagens com restos de construção; numa antiga casa abandonada – nosso teatro de fantasmas e assombrações; na convivência diária com a construção da Catedral, a um quarteirão de casa, nas visitas aos navios do porto; nas brincadeiras de areia e mar, castelos enfeitados de conchas; na montagem dos presépios, cenários de musgos, pedras, lagos de espelho e, certamente, nos sagrados desenhos de criança que cresceram comigo, se tornaram adultos e vão continuar comigo até a ponta do último lápis se quebrar.

O gosto pela escrita veio dos quadrinhos e das visitas à biblioteca pública que também ficava no largo da matriz. Tudo estava ao alcance da mão. Cabia cada um desses espaços encantados na minha alma ainda miúda de garoto.

Suspeito que toda a diversidade da minha atividade artística tenha origem nessa riqueza de referências e estímulos de uma infância vivida da porta de casa pra fora, em segurança, sem o brilho caleidoscópico e fascinante das telas.

 

 

A maioria dos seus livros são para o publico infantil e isto acabou promovendo um intenso envolvimento seu com a Arte Educação, sobretudo nas oficinas de modelagem com massinhas de modelar para crianças e professores realizadas por todo o país. Como você enxerga a importância deste movimento na educação das crianças?

 

Olha, foi uma sorte uma bola de massinha passar rolando no meu caminho e eu seguir com ela fazendo livros, personagens, cenários e oficinas Brasil afora. Com certeza, não temos o total controle das engrenagens que movem boa parte dos nossos destinos. Aqueles bonecos de barro do começo da história têm grande possibilidade genética de serem os ancestrais dos personagens de massinha que atuam nas minhas histórias infantis.

Quando digo sorte, penso que a massinha não estava no meu repertório artístico. E justamente ela, que tem identificação imediata com a criança. Foi ela que abriu o coração das crianças para mim, deixando-me entrar com meus recados. O mais difícil estava feito. Agora, era oferecer: poesia, imaginação, fantasia, histórias e conteúdo.

Com o trabalho desenvolvido nas ilustrações tridimensionais dos meus livros, vieram as oficinas de modelagem com massinha. Isso me abriu o caminho das escolas, dos professores e da arte educação. São trinta anos de conversas e práticas sobre o universo da criação artística, do potencial da expressão de cada um, dos preconceitos, dos padrões que impedem o fundamental exercício da liberdade.

Este é o ponto que coloca a arte educação como aprendizado fundamental na formação da criança. É sempre bom lembrar que o adulto que dorme dentro dela, como a árvore dorme na semente, também está se nutrindo de todo aquele conteúdo que o fará um cidadão crítico, empático e livre.

De seus livros algum é seu predileto? Nos conte um pouco sobre isto? 

Cada um dos meus livros tem sua identidade diversa dos outros, nascidos sempre de paixões pessoais: os objetos, a rua, o livro, a poesia, a arte, a infância, a cultura popular, a música, a cidade. A fantasia e as cores são o traço genético que os identificam como irmãos, filhos do mesmo pai.

Para cada um dos meus filhotes tenho um amor específico, só dele. E os amo igualmente, de verdade.

Foto: Gustavo Campos

"Quando digo sorte, penso que a massinha não estava no meu repertório artístico. E justamente ela, que tem identificação imediata com a criança. Foi ela que abriu o coração das crianças para mim, deixando-me entrar com meus recados. O mais difícil estava feito. Agora, era oferecer: poesia, imaginação, fantasia, histórias e conteúdo"

Foto: Gustavo Campos

Desde 2009, a cadeira de rodas se tornou sua acompanhante por conta de uma doença degenerativa chamada  Esclerose lateral amiotrófica, mas também seu que ela não lhe tirou a alegria de viver e de continuar trabalhando, tanto que em 2016 você criou o bloco de Carnaval Todo Mundo Cabe no Mundo, bloco este que acolhe pessoas com deficiência. Como surgiu esta ideia e como você encara a importância deste espaço de folia para este público tão carente de lazeres acessíveis?

Como vivi até próximo aos cinquenta anos andando, pulando e dançando, naturalmente foi impactante a mudança para um corpo com limitações. Foi como se tivessem tirado meu prato antes de terminar de comer. Sofri durante um ano, não mais que isso. Foi o tempo de me adaptar ao novo mundo. A sensação era essa: o mundo havia mudado à minha volta. As distâncias aumentaram, as ladeiras ficaram mais inclinadas, as escadas dobraram o número de degraus, os objetos ficaram mais pesados, as pessoas, as casas e as árvores cresceram. Até meus pés ficaram mais distantes de mim.

Bom, se é esse o corpo e o mundo que tenho para viver, e eu quero viver, bola pra frente que o jogo só termina com o apito final. Com essa decisão, o mundo continuou mudado, diferente do que era na minha infância, adolescência e boa parte da vida adulta. Mas, eu mudei.

 

Reconheci o novo corpo e parti pra cima, pra rua, pro mundo.

Nasceram novos livros, novos trabalhos, novas amizades, novo olhar sobre tudo e todos.

Esse renascimento trouxe junto o TODO MUNDO CABE NO MUNDO, um bloco de carnaval com a proposta de inclusão e combate ao preconceito, pela democracia, arte e liberdade.

A ideia surgiu de uma provocação do Leonardo Medina, meu genro, para que eu criasse um bloco no embalo da retomada do carnaval de BH, usando minha vivência de outros carnavais. Topei a parada desde que usasse o nome e a marca criados por mim, para o movimento Preconceito Zero, organizado por um grupo de pessoas que se reuniram numa ocupação em Santa Tereza, em 2011.

O TODO MUNDO CABE NO MUNDO vai para o quinto desfile em 2020, arrastando mais de 3000 pessoas, fiel a seu conceito de ser o carnaval de rua uma festa popular, democrática, sem cordão de isolamento.

"... um bloco de carnaval com a proposta de inclusão e combate ao preconceito, pela democracia, arte e liberdade."

Você também é considerado padrinho da Savassi, um bairro bem criativo de Belo Horizonte. Como a Savassi serviu de inspiração para você e sua arte?

A campanha de destacar pontos turísticos de BH e indicar um padrinho para cada local foi da Rede Globo, pela comemoração de 120 anos da fundação da cidade. Eu fiquei com a Savassi, que eu adoro. Frequento a região desde a adolescência, acompanhando todas as suas metamorfoses.

 

Sempre me interessei pela arte urbana, o design, a comunicação visual, o movimento das ruas, o pensamento contemporâneo traduzido na arte, na moda, no comportamento. A Savassi sempre me alimentou dessas necessidades sutis, delicadas, sensoriais para desenvolver o meu trabalho de criação e arte.

"... eu Savassiando"

Foto: André Avelar

Atualmente, diante de tudo que você já realizou e não é pouco, você abriu uma campanha para  deixar um legado, voltado principalmente para a educação infantil a partir da arte, trabalho que desenvolve há 50 anos. Nos conte como é esta campanha e de que forma os leitores da Tendência Inclusiva podem contribuir?

 

 

Pois é, tanto tempo dedicado à arte – reflexões, questionamentos, ateliês, obras –,  à arte educação, livros publicados, oficinas durante os últimos trinta anos por todo o país, para os mais diversos públicos não pode se perder no tempo sem uma tentativa de registro, de cuidado e preservação de um legado para futuras gerações de crianças, professores, educadores e público em geral.

Par isso, foi criada uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a gravação de aulas virtuais, digitalização de obras, gravação de palestras, organização de acervo, seleção de informações e remuneração de profissionais para as diferentes demandas.

O nome da campanha é Legado para Educação Infantil – Marcelo Xavier e está sendo realizada pela empresa de arrecadação virtual Kickante.

Para contribuir, basta acessar o link: www.kickante.com.br/marceloxavier

Sua colaboração faz a diferença para a educação. Veja as recompensas especiais acessando o link: www.kickante.com.br/marceloxavier!  

É mais que uma honra tê-lo como entrevistado de nossa revista. É um encantamento poder mostrar um pouco de Marcelo Xavier e toda sua obra. Só temos a agradecer e pedir a você que deixe, se possível, um recadinho para nosso leitores.

Chegamos ao final da nossa conversa. Não sei quão longe está de mim você que me ouviu até agora. Não importa. Estamos sempre perto um do outro, ligados pelo sentimento artístico que há em todos nós. A arte está em todo lugar, a qualquer hora, em todo mundo. Pause o que está fazendo, onde estiver e olhe à sua volta o ambiente, as cores desse ambiente, os objetos, as pessoas, os sons, a luz. A arte está aí, junto de você, em estado latente. E, também, dentro de você. Para se manifestar, só exige um pouco mais de sua atenção.

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Adriana Buzelin é criadora e editora da Tendência Inclusiva, Colunista da Revista Reação e Produtora do Programa Viver Eficiente. Se tornou a primeira Mergulhadora Adaptada através da HSA de seu estado, escultora diplomada por honra ao mérito com sua obra denominada Favela, retomou sua carreira de modelo fazendo parte do casting da Agência Kica de Castro, após um acidente automobilístico que a deixou tetraplégica. Secretária Estadual da Mulher do Partido Verde de Minas Gerais, Secretária Municipal de Direitos Humanos e Diversidade de Belo Horizonte e foi a primeira mulher com deficiência a concorrer ao cargo de vice-governadora do estado de Minas Gerais em 2018. Amante das artes e dos animais, luta pela inclusão social, pelos direitos das pessoas com deficiência, mulheres e idosos.

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