Maestro João Carlos Martins

por Sílvio Carvalho

Paixão, superação e emoção. Estas 3 palavras, certamente cerceiam a vida do Maestro João Carlos Martins. Um homem que lutou pela sua carreira não deixando que os percalços da vida fossem maiores que seu amor pela música. Como diz o Maestro, fundador e regente da Filarmônica Bachiana SESI - SP: “Faça tudo com paixão, dedique-se muito, emocione-se a si mesmo e aos outros”.

Foto: Fernando Mucci 

Nascido em São Paulo, em junho de 1940, iniciou seus estudos ainda pequeno, após ganhar de presente de seu pai um piano. Aos 13 iniciou uma carreira meteórica. Aos 18 partiu para o exterior em busca de novos horizontes e definitivamente alçou grandes voos. Aos 21 anos, já lotava tradicionais casas de espetáculos no exterior, como o conceituado Carnegie Hall, feito realizado até hoje por poucos brasileiros.

 

A trajetória de vida do músico foi marcada por muito sucesso, mas também por um grande drama pessoal. Desde criança, João Carlos Martins sofre de um distúrbio neurológico, caracterizado por contrações musculares involuntárias, que comprometeu os movimentos de suas mãos. A evolução da doença fez com que o maestro fosse submetido à 20 cirurgias ao longo de sua vida. Por fim, aos 64 anos, ele teve que abandonar de vez o piano.

 

Como o próprio Maestro costuma dizer, a música salvou sua vida, fez-se  presente em todos os momentos e serviu-lhe de apoio para continuar lutando. Como alguém poderia abandonar uma parceria tão fiel? Já que não podia mais tocar, quem sabe João Carlos Martins não pudesse reger? Assim, continuaria ao lado de sua amada música por mais tempo.

 

A resposta certamente seria continuar tentando e hoje, aos 71 anos, ele é o fundador e regente da Orquestra Bachiana Sesi-SP e está à frente da Fundação Bachiana, uma organização sem fins lucrativos, que desenvolve trabalhos de musicalização com jovens e crianças em bairros da periferia de São Paulo.

Maestro João Carlos Martins e Filarmônica Bachiana SESI - SP Fotos: Fernando Mucci

O senhor acredita que a música erudita tenha o poder  de aproximar  classes sociais? Como ela pode promover a inclusão?

 

Sim. Acho que não só a música erudita, mas a música em si tem um grande poder na inclusão social.

Busco sempre unir a excelência musical com a responsabilidade social. Queremos que as crianças e adolescentes tenham a música como forma de expressão sem que seja ofício ou profissão.

 

Sabemos que o senhor é um ícone da música erudita, tendo destaque internacional como pianista por sua interpretação de Bach, e hoje segue como maestro.  Qual foi sua inspiração para seguir a carreira erudita?

 

Tudo começou com meu pai, um grande incentivador. Ele tinha o sonho de ser pianista, mas aos dez anos perdeu um dedo em um acidente. Foi dele que ganhei meu primeiro piano aos oito anos e seis meses. Depois venci um concurso tocando obras de Bach. Desde então o piano e a música erudita são minha vida.

 

Piano ou batuta? Qual paixão fala mais alto ao seu coração?

 

O piano é o primeiro amor. A paixão pelo instrumento fala mais alto.

Maestro João Carlos Martins:

“Faça tudo com paixão, dedique-se muito, emocione-se a si mesmo e aos outros”.

Maestro João Carlos Martins e Filarmônica Bachiana SESI - SP 

 Fotos: Fernando Mucci

O senhor  se enxerga como um exemplo de superação? Já teve algum contato com músicos que possuam algum tipo de deficiência?

 

Eu sempre digo que seria pouco dizer que a música me auxiliou nos desafios que enfrentei. Prefiro afirmar que a música salvou a vida deste velho maestro. Quando os médicos disseram que eu não poderia mais tocar nem com a mão esquerda nem com a direita, aquilo parecia um pesadelo. O que prevaleceu foi, apesar de alguns percalços, o amor à vida e antes de tudo o amor à música.

 

Já tive muitos contatos e é sempre engrandecedor poder ouvir experiências, de pessoas mais fortes do que eu. A troca com quem quer que seja sempre nos ensina.

 

Poderia deixar uma mensagem para quem é apaixonado por música e gostaria de iniciar seus estudos? Pessoas com mais idade também podem começar?

 

Claro que podem. A música não tem idade. Eu tinha 63 para 64 anos quando decidir me tornar maestro.

Meu recado é fazer tudo com paixão, se dedicar muito, se emocionar e emocionar aos outros. 

Algo que sempre digo e recomendo aos jovens músicos é que é preciso ter a alma de um poeta e a disciplina de um atleta. Espero que eles tenham determinação, pois tudo se consegue com 98% de transpiração e 2% de inspiração.

Maestro João Carlos Martins e Filarmônica Bachiana SESI - SP 

 Fotos: Fernando Mucci

por Sílvio Carvalho em 26/04/2016

Fotos e vídeos: Arquivos do Entrevistado e Acervo da Orquestra

Revisão: Adriana Buzelin

 

 

 

© Copyright Tendência Inclusiva  2014 / 2020