Luciane Kadomoto 

e a educação inclusiva.

 

Educadora inclusiva com uma história de vida emocionante, Luciane fala de como a inclusão e a exclusão fez parte de sua história e ainda faz. Relata sua infância, de sua adolescência e agora na fase adulta suas conquistas como educadora inclusiva. Leia e curta essa bela história de vida.

Luciane Kadomoto é a mais nova colunista colaboradora da revista Tendência Inclusiva.

 

Estreando com sua matéria Por que é necessário falar da educação inclusiva, figura também como matéria exclusiva da nossa 5ª edição.

 

 

As questões sobre "inclusão" e "exclusão" estão em minha história desde a infância. Sou a caçula dos três filhos de meus pais, com diferença de 4 anos de um e de 6 anos de outra. Como a proximidade de idade deles é maior, eles sempre saíam juntos para brincar, iam à casa dos amigos, à escola e, eu, por ser muito pequena e nova, não podia acompanhá-los.

 

Dos meus 7 aos 11 anos de idade eu era considerada uma criança obesa e, na época, sofria bullying, seja pelos familiares, seja pelos outros grupos sociais, como escola, clubes, etc. Lembro-me que haviam jogos nas aulas de Educação Física nas quais eu não podia brincar, como gincanas em que tínhamos que passar por dentro de um pneu de carro. Era constrangedor, minha cintura não passava...

 

Nos meus 10 anos de idade, minha família se mudou de um bairro popular para um bairro nobre de São Paulo, no qual a maioria das crianças era desenvolvida para a competição, disputa do melhor e da mais bela para ser "a modelo" conforme os padrões da época. Imagine eu (obesa) no meio desse grupo? Pois é, mais histórico de bullying...

 

Dos 11 aos 12 anos coloquei uma meta em minha vida: emagrecer para parar de sofrer agressões psicológicas e tentar ser feliz. Consegui emagrecer, mas percebi que a felicidade não depende de ser magra, mas sim da auto aceitação, independente do padrão de beleza estipulado pela época e independente da opinião dos outros.

 

Aos 13 anos de idade conheci meu atual esposo. Sua família era de uma classe social muito baixa, trazendo questões de exclusão social, no qual até hoje me inspira para alguns projetos em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Aos 15 anos eu tive o meu primeiro filho (hoje com 19 anos). O parto foi bem complicado, porque meu corpo ainda não tinha o desenvolvimento adequado e o bebê tinha três voltas de cordão umbilical no pescoço. Quase foi necessário utilizar o "fórceps" (aparelhagem no qual se puxa o bebê pela cabeça, podendo ou não trazer sequelas, como a deficiência intelectual e/ou física). Mas ele teve o seu desenvolvimento conforme o esperado. Hoje trabalha, é Técnico em Engenharia Elétrica e cursa o Ensino Superior na mesma área. 

 

Toda essa experiência fez com que despertassem em mim as questões de como tratar e desenvolver uma criança com deficiência física e intelectual.

             

Fui estagiária de Psicologia na SPTRANS (São Paulo Transportes), empresa que administra e fiscaliza os ônibus públicos do município de São Paulo. Lá eu tinha a função de Supervisionar, dar Treinamentos e Orientação Profissional para o atendimento às Pessoas com Deficiência, Gestantes, Idosos e outros para a gratuidade de transporte público.

 

Em muitas empresas, o Treinamento é considerado uma Educação Corporativa para o ensino-aprendizado e mediação para o desenvolvimento dos profissionais.

 

Depois fui para uma empresa que presta serviços a grandes Bancos, ministrando treinamentos para grande fluxo de colaboradores. Em variadas turmas, percebia que algumas pessoas precisavam de uma diversidade de aprendizado, seja por questões intelectuais, limites, ou por exclusão social no aprendizado. Isso fez com que me despertasse a vontade de fazer uma Pós-Graduação em Educação Inclusiva e Deficiência Intelectual para me aprimorar com novas estratégias e criatividades na mediação de ensino-aprendizado.

 

Durante a minha passagem nesta empresa, fiquei grávida do meu filho caçula. Passei por muito estresse e pressão e eu não conseguia me alimentar direito. Consequentemente o bebê ficou com o sistema imunológico fraco. Qualquer virose que ele pegava, resultava em febres altas e em constantes convulsões. Essa experiência fez com que me despertasse mais a busca pelo conhecimento sobre a deficiência intelectual, autismo, epilepsia, dislexia entre outras diversidades. Depois de tratamentos e cuidados, ele não apresentou mais convulsões e atualmente tem o seu desenvolvimento conforme o esperado, mas sempre estamos em  "estado de alerta".                         

               

Após 4 anos de trabalho nesta empresa (e ter muitas decepções por ver pessoas com ou sem deficiência sendo dispensadas, mesmo que qualificadas e com potencial), fui para o CIEE (Centro de Integração  Empresa-Escola). Atuei como Instrutora de Aprendizagem, com capacitação profissional para Jovens Aprendizes. A questão da inclusão era novidade para muitos profissionais, chamando a minha atenção para capacitá-los, desmistificar mitos e pré conceitos, contribuir para que a inclusão fosse feita com qualidade, diminuindo as barreiras atitudinais. Com a união e apoio da Supervisora Renata Mello, Instrutores Uliana Alves, Tatiane Gama Moura, Adriana Lepique, Luana Marinho, Erica Lucena, Darlene Ribeiro, Fabiana Pelegrino (além de outros), Analista, Assistentes e Auxiliares do Polo e do parceiro e amigo Pedro Paulo Barros Zogbi, fizemos um movimento de projetos para quebrar essas barreiras, seja para os Jovens Aprendizes, seja para a capacitação aos Instrutores de Aprendizagem.  

             

Workshop de Educação Inclusiva para os Instrutores de Aprendizagem - CIEE SP

 

 

 

Para isso, também contamos com o apoio da área Sócio Educativa da APAE – SP, como com os professores João, Vanda, Ligia Akamine, e todos os integrantes do Bando do Sussego. 

Aprendizagem do CIEE e área Sócio-Educativa da APAE

 

 

Junto com a parceria do Pedro Paulo Zogbi, abri a Inclusa - talentos e diversidade no ambiente corporativo e nas escolas, com os serviços de palestras, workshops, cursos para trabalhar a questão de inclusão com qualidade e Humanização, valorizando e potencializando o Capital Humano, além de serviços como acompanhamento para a inclusão do profissional com deficiência, com a metodologia do Emprego Apoiado e de Recursos Humanos.  

              

Na mesma época atuei na ADID (Associação para o Desenvolvimento Integral do Down), no qual, junto com a Psicóloga Denise Brandão Barlleta, sob a Coordenação da Psicóloga Angela Maize Silva Alves, ministramos treinamento profissional aos jovens e orientação profissional personalizada, também com a metodologia do Emprego Apoiado. Como parceiras, contávamos com o trabalho multidisciplinar, com a Srª Alda Lucia Pacheco Vaz (Diretora Educacional) Maria de Fátima Rebouças da Silva (Assistente Social), Vera  Lucia Biarari (Coordenadora Pedagógica), Maria Olívia Rodrigues (Professora de Informática), Renata Zani de Oliveira Franco (Psicóloga), Ellen Costa, Gustavo Duque, Adelia de Castro(estagiários de Psicologia) e de todos os professores e fonoaudióloga.

 

Atualmente estou no SENAC de Jundiaí que, junto com a Docente Silvia Guedes Bragion e Coordenadora Fátima Vidal, preparamos jovens com deficiência intelectual para o mercado de trabalho no Programa Educação para o Trabalho Trampolim (PET Trampolim).


Persisto com a Inclusa, no Projeto "Inclusa Art& Flowers", mediando o ensino de modo personalizado para pais e/de Pessoas com Deficiência para o Empreendedorismo, assim como para a confecção de produtos através da arte, como arranjo de flores em épocas festivas e bonecos de pano. Com este último a Inclusa tem o objetivo de incluir bonecos com deficiência nas brincadeiras das crianças, assim como instrumentos de trabalho para brinquedotecas e ludoterapias (psicoterapia através do brincar). A produção do primeiro boneco foi inspirada no palestrante motivacional e analista financeiro Marcos Rossi (www.marcosrossi.com).

Marcos Rossi, Victor Morcelli, primeiros inspiradores para os bonecos inclusivos, e Luciane Kadomoto.

Bonequinhos Marquinhos

Continuo com os trabalhos de workshops, cursos, palestras, acompanhamento e orientação às Empresas, às Escolas Comuns e Escolas de Ensino Técnico, como na participação na "Campanha Nacional pelo Direito à Educação – por uma escola e um mundo para todos", organizado pela SAM (Semana de Ação Mundial).

 

Os assuntos abordados foram sobre a inclusão, o desenvolvimento da Pessoa com Deficiência, o desenvolvimento dos grupos envolvidos, diversidade, igualdade de direitos, estratégias de como ter acessibilidade e inclusão na sala de aula e o olhar para as características, competências e habilidade de cada um.

 

Uma das pessoas que inspira alguns projetos da Inclusa é o Scott Rains (www.rollingrains.com), que atua para o legado inclusivo há mais de 40 anos.

E eu podia continuar com atuação em outras áreas, com retornos financeiros maiores e mais rápidos, mas escolhi fazer algo que amo e contribuir para a mudança do jogo de forças que foram criadas ao longo da história, como a exclusão social, educacional e profissional. Acredito que sensibilizando cada vez mais para a inclusão, acessibilidade, igualdade de direitos e de valores, as pessoas começarão a aceitar mais a diversidade, desenvolvendo uma sociedade mais Humana e empática (se colocar no lugar do outro), sem deixar de ser produtiva e economicamente ativa.A Educação Inclusiva nas escolas e nos ambientes corporativos poderá ser o meio facilitador para essa evolução, seja para o desenvolvimento da Pessoa com Deficiência, seja para que todos se aceitem como são.

 

Para conhecer sobre o T-Inclusa de Luciane Kadomoto acesse o site: http://www.t-inclusa.com.br/

Fotos: Acervo Pessoal da Entrevistada

 

por Adriana Buzelin em 15/01/15

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Aprendizagem do CIEE e área Sócio-Educativa da APAE imagens cedidas pela entrevista