Giovanni Venturini

e seus multilatentos.

 

Ator, palhaço, poeta, modelo, Giovanni Venturini é super talentoso e encara o trabalho com profissionalismo acreditando no fim do preconceito e em uma sociedade entre iguais apesar das diferenças.

Ator, palhaço, poeta, modelo, como surgiram tantos talentos?

 

Bom, não sei se chamo de talentos, mas sim de paixões. Sempre soube que eu queria ser ator quando crescesse, ops...quando ficasse mais velho, pois crescer nunca cresci. Rsrs...

Pois então, sempre soube que era isso que eu queria: ser ator. Creio que muito se deve ao fato da educação que eu tive e das pessoas que passaram pela minha vida. O meu pai é professor de Educação artística, formado em Artes, com ênfase em cenografia, então o teatro sempre esteve muito presente em casa. A minha mãe é formada em Língua Portuguesa e também é professora, portanto a literatura do mesmo modo sempre esteve muito presente em casa. Sem falar na escola que conheci muitos professores bons e incentivadores dessa veia artística. Professores que me apresentaram muitas bandas, peças, filmes, grupos que despertavam ainda mais meu desejo por arte. Quando tinha aqueles “teatrinhos” de escola, para encenar algum texto, algum assunto que estávamos estudando, alguma feira cultural, feira de arte, dentre muitos eventos na área cultural, eu sempre me empenhava muito e adorava fazer. E na maioria das vezes as personagens principais ficavam na minha mão. Talvez pela minha entrega, ou pela minha facilidade em decorar os textos, não sei. Enfim, na escola sempre tive muitos professores que foram incentivadores da arte em mim.

 

E o palhaço eu apenas o libertei, pois todos nós temos um dentro de nós...Só precisamos descobri-lo.

 

"E o palhaço eu apenas o libertei, pois todos nós temos um dentro de nós... Só precisamos descobri-lo." - Giovanni Venturini

 

 

Em 2014, Giovanni Venturini apareceu na mídias inúmeras vezes.

Nos conte como foi o convite e a criação da personagem Pequenotti em Chiquititas?

 

Não apareci na mídia tantas vezes assim. Apenas acho que apareci da forma correta. Sem cair no estereótipo e nos programas de humor apelativo. Rsrs...


Bom o Pequenotti eu não sei como foi criado. Coisa dos roteiristas e diretores da Chiquititas. Eu apenas fiquei sabendo que haveria um teste para a novela e fiquei muito interessado em participar, pois se tratava de um advogado. Personagem sério, que fugiria dos padrões e estereótipos que geralmente são atribuídos aos anões.


Depois de muita insistência e de muito trabalho a Kica de Castro conseguiu agendar um horário no teste para mim. Chegando lá haviam muitos outros “pequenos” (termo que muitos dos anões preferem que usem) participando do teste, e dentre eles eu fui aprovado para a personagem. 


A princípio seria apenas uma participação, em aproximadamente 2 ou 3 episódios. Depois disso, me chamaram novamente, disseram que haveria uma nova participação do Dr. Golias Pequenotti. E depois mais outra, e mais outra... E assim foi indo.
Sei que entre idas e vindas foram mais de 10 capítulos com pelo menos uma cena do Dr. Pequenotti. Foi, e vem sendo, um trabalho muito importante, pois mostra o meu lado ator, acima da minha condição física, e isso é o que eu sempre busco: Ser reconhecido pelo meu trabalho como ator. Claro que existe uma brincadeira ou outra em relação a altura nas cenas, e até mesmo com nome do personagem, mas nada apelativo ou que ridicularize a imagem do anão. Sou muito grato por ter conseguido este personagem e pelo espaço que ele foi ganhando na novela.

 

Dr. Pequenotti em Chiquititas no STB

Também houve sua participação em Histórias Extraordinárias no National Geografic, nos fale um pouco sobre esse programa?

 

Certo dia entraram em contato via telefone comigo, dizendo que estavam fazendo uma versão brasileira do programa Histórias Extraordinárias do National Geographic, e que o último episódio seria sobre nanismo. Disseram que viram o meu perfil, e gostariam de me entrevistar e saber se eu toparia fazer parte. Depois de uma entrevista longuíssima via telefone, eles confirmaram que eu seria uma das personagens, caso topasse. A proposta era eles acompanharem meu dia-a-dia, sem mudar nada. Mostrar realmente como eu vivo, o que eu faço, mostrar minha casa, meus trabalhos, ensaios, acompanhar minha rotina. Eu topei, mas com um pouco de ressalva. Tinha muito medo da série nos mostrar como “coitadinhos”, “vitimizar” e mostrar um lado apelativo. Mas muito pelo contrário, depois que vi o resultado fiquei muito feliz e emocionado e ver o valor que eles deram, e que mostrou sim nossas dificuldades, mas mostrando que vivemos igual e comum a qualquer outro cidadão. Foi uma honra muito grande ter participado e conhecido a equipe maravilhosa que me acompanhou para cima e para baixo durante 3 dias aproximadamente.

 

Você atua como modelo do casting de Kica de Castro, como você enxerga a participação de modelos com algum tipo de deficiência no universo da moda?

 

É um espaço bem difícil de conseguir entrar. A moda é um pouco impositiva em relação ao que é bonito. Eles ditam um padrão (errôneo) do que é belo. A beleza é muito relativa e pessoal. Quase nunca o deficiente é atrelado à moda, ao belo, ao sexy, etc. Mas pelo casting da Kica podemos ver que há sim muitos tipos de beleza e que isso independe das limitações e/ou condições físicas. A Kica é uma pessoa guerreira e persistente que vem lutando cada vez mais para conseguirmos espaço nesse ramo. Precisamos mostrar que há espaço nas passarelas, nos manequins, nas fotos publicitárias, nas fotos sensuais (por que não?) em todos os ramos da moda. Sem dúvida já melhorou muito, mas o caminho é longo e árduo. Temos que seguir firmes e mostrando para todos que também somos capazes de ser modelos.


E quando eu digo sermos modelos, é em todos os sentidos. O modelo com deficiência também precisa se especializar e estudar igual qualquer outro modelo profissional. Não é o fato de termos alguma deficiência que vai nos colocar em uma agência especializada em moda inclusiva, ou em um desfile “assistencialista” como muitos fazem. Se é isso que queremos seguir, precisamos nos dedicar, pois é uma profissão séria.

 

 

Como é seu trabalho no circo?

 

A paixão pelo circo (não especificamente pelo palhaço) eu não sei bem ao certo como despertou, mas quando eu era mais novo (por volta dos 15 anos) eu conheci um grupo chamado “O Teatro Mágico”, que misturava música, poesia e circo em suas apresentações e me deixou encantado. Comecei a acompanhar e ir a diversos shows e desse modo conheci e fiz amizade com uma galera que também se interessava pela linguagem circense. Essa galera, resolveu fazer um grupo voluntário que realizava visitas à orfanatos, hospitais infantis e até mesmo em asilos, utilizando da linguagem do clown (palhaço). Eu fui me interessando e resolvi entrar também. Acabei participando de 3 projetos que utilizavam dessa mesma linha artística. Foram mais de 2 anos participando de visitas e me aproximando e descobrindo um pouco do clown que há em mim. ( Pois como eu disse anteriormente, todos nós temos um palhaço dentro de nós, só precisamos descobrir e libertá-lo)


Depois disso me encantei por outros ramos do circo. Comecei a fazer malabares, desenvolver um pouco mais meu lado palhaço, e assim fui convidado para fazer parte do espetáculo “Vida de Circo” da Cia. Circodança (espetáculo inclusivo que mistura dança, circo e teatro). Como já cansei de falar, sempre tomando o cuidado para  não cair no padrão, no estereótipo do “anão de circo”, do anão sendo ridicularizado, ou estando no circo como uma figura pitoresca. Sempre buscando ser reconhecido por algum talento artístico e circense.

Vida de Circo – espetáculo teatral

Família Imperial – Série de Cao Hamburger

Como você encara o processo de inclusão da pessoa com nanismo na sociedade?

 

O processo de inclusão como um todo é bastante difícil. Não só com o nanismo.
Mas o nanismo tem um ponto muito negativo que é a mídia.  A sociedade está acostumada a ver anões em programas de humor, programas de auditório e até mesmo em filmes sempre como sátira, sendo ridicularizado ou assumindo personagens “fantásticos”, não tão reais. Quase sempre associado à fantasia ou comédia. Portanto quando nos veem nas ruas, já cria-se automaticamente essas imagens que a mídia oferece. Muitas vezes não somos enxergados como cidadãos, e consequentemente as políticas públicas acabam  nos esquecendo também. Hoje em dia utilizamos as poucas adaptações que existem na cidade para os cadeirantes. Elas acabam nos servindo e ajudando, mas não há nenhuma política pública pensada exclusivamente para nós.  

 

Quais são as principais dificuldades que você enfrenta por conta do nanismo?

 

Como eu disse anteriormente, com as adaptações dos cadeirantes conseguimos nos virar. Acredito que a pior parte da inclusão e as maiores dificuldades da pessoa com nanismo seja a aceitação dos cidadãos, das pessoas nas ruas, no nosso dia-a-dia. Receber um olhar de “nojo”, uma risadinha, ou uma piada de mal gosto ou até mesmo alguém querendo te fotografar no transporte público. Sim, já presenciei várias pessoas querendo me filmar e/ou tirar foto escondido (isso antes de aparecer na mídia. Não adianta nem dizer que é por conta que me viram na TV, mas sim para sacanear na internet, ou mandar para algum amigo) Isso me incomoda bastante e creio que muitos passam por essas situações.


Presenciar uma criança ser repreendida pelos pais por estar olhando para nós, ao invés de explicar para ela que existem pessoas diferentes e assim formar um cidadão melhor, me incomoda demais também. Eu não culpo as crianças. Elas certamente tem curiosidade, e muitas vezes nunca viu de perto uma pessoa com nanismo. Cabe aos pais explicar e conscientizar seus filhos, tirar a imagem negativa que a mídia passa para eles, e assim futuramente torna-los pessoas e cidadãos melhores.

Quem é Giovanni Venturini e qual recado você deixa para os leitores da Tendência Inclusiva?

 

Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite desta entrevista, e pelo espaço que a Adriana Buzelin e a Tendência Inclusiva nos proporciona para discutir e expor assuntos sobre deficiências e inclusão na sociedade, em diversos âmbitos.

 

Agora quanto a quem é Giovanni Venturini, acho que  nunca saberei ao certo quem é ele. Até porque eu nunca sou apenas um, estou sempre mudando, e isso que é o mais legal. Mas certamente algumas convicções permanecem e o recado que gostaria de deixar é que Giovanni Venturini é um cara que vai continuar lutando pelo seu espaço como ator, poeta, circense, artista de um modo geral. Um cara que quer e sonha em ser reconhecido pelo talento, e que o preconceito tanto no meio artístico quanto na sociedade não exista mais.

E que pouco a pouco vem realizando esse sonho de viver da arte de forma digna.

 

Queria deixar mais um recado aos leitores, principalmente aos que tem filhos. Não é bacana rir de um anão na rua, fazer piadas, satirizar e nem sequer reprender seu filho pela curiosidade despertada nele. Se queremos mudar a visão da sociedade, precisamos começar educando as crianças. Apenas se conscientize e nos trate como outro cidadão qualquer, igualmente, mas respeitando nossas diferenças e explicando para as crianças que todos somos iguais, e ao mesmo tempo diferentes.

E fiquem atentos que em 2015 vem bastante projeto artístico por ai! 

 

 

Conheça mais deste talentoso artista em seu blog pessoal: http://anaosergigante.blogspot.com.br/

 

Fotos: Acervo Pessoal da Artista, 

Kica de Castro e Eduardo Sardinha

 

por Adriana Buzelin em 15/01/15

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Paula Ferrari e Giovanni Venturin

A foto feita em estúdio para campanha de preconceito da ONG Essas Mulheres e parte da exposição Pequenas Doses de Sensualidade. Foto: Kica de Castro