Dudu do Cavaco e Leonardo Gontijo

e o projeto Mano Down

 

Movidos por amor, um amor de irmãos, dizer eu te amo se tornou fácil.

Diante da síndrome de down, Eduardo (Dudu do Cavaco) e Leonardo Gontijo, fazem a sociedade refletir sobre a inclusão e igualdade. Criado o Instituto Mano Down, acolhem todos que entram neste amplo universo. Lançaram, neste ano, o segundo livro chamado "Não importa a pergunta, a resposta é o amor" e assim, os irmãos, com a musicalidade e o talento de Dudu, viajam por todo Brasil levando informação, conhecimento, quebrando paradigmas e principalmente contaminando todos com o amor.

Eu me contaminei, se deixe também se contaminar por eles!

Leonardo, como nasceu a proposta do projeto Mano Down?

 

Surgiu do amor incondicional que sinto por meu irmão e pela vontade enorme de ajudar a construir uma sociedade menos desigual e mais inclusiva.

 

Surgiu após o primeiro livro “Mano Down: Relatos de um irmão apaixonado” que escrevi contando a história de vida do meu irmão. Com a forte repercussão do livro começamos formatando alguns produtos para serem comercializados, uma vez que, antes do livro, a maioria das atividades dele era gratuita.

 

A ideia primordial do Projeto Mano Down (hoje Instituto Mano Down)  é criar oportunidades de maior autonomia para o Dudu, para que ele possa exercer um controle cada vez maior sobre sua vida, além de demonstrar todo seu talento artístico e capacidade. Aos poucos, porém, o programa foi se tornando mais amplo, abrangendo não só a vida do Dudu, mas de várias pessoas com down.

 

Com costumo falar: meu irmão tirou minha viseira e passei a ter menos invisibilidade social. Aprendi que o preconceito tem que ser combatido com atitudes e iniciativas e não com o discurso do coitadismo "do por que eu?".


Ele me despertou para urgência de mudarmos alguma realidade e que era preciso abordar o assunto não como coitadinho e sim como aprendizado e exemplo de vida.

Leonardo Gontijo e Dudu Gontijo

Leonardo, como você enxerga a inclusão da pessoa com Síndrome de Down na sociedade. Você acredita que houve uma grande evolução na conscientização da capacidade desde o nascimento do Dudu até os dias de hoje?

 

Penso que avançamos a passos lentos, porém tendo a ver um caminho. A aprovação agora em agosto da Lei Brasileira de Inclusão foi mais um passo. Penso também que as redes sociais ajudam as famílias a fazerem contatos e verem exemplos. É por isso que lutamos. Acreditamos que com amor, estímulo e autonomia podemos avançar muito. Afinal, segundo o IBGE, 45 milhões de brasileiros tem alguma deficiência. Ainda falta avançar muito na inclusão escolar, acredito que se crescermos com a diversidade lidaremos melhor com este tema. Sou otimista e vejo um horizonte de conquistas a frente.

 

A meu ver a maior dificuldade é a falta de informação. São as barreiras atitudinais. São os mitos que são criados. A lei do menor esforço impede a inserção das pessoas com down no mercado de trabalho. O que percebo que muitas empresas querem contratar os “menos deficientes”. Muitas empresas nos ligam querendo pagar para cumprir a cota e a pessoa nem ir na empresa.


Por isso batalhamos tanto para que a inclusão ocorra desde pequeno, nas escolas, pois quando crescermos a diversidade, penso que teremos um olhar menos seletivo para este tema.

 

Estamos avançando e acreditamos que a informação e o convívio social são as soluções e caminhos para avançarmos mais.

 

 

Dudu, como a música surgiu em sua vida?

 

Desde de novo observava as pessoas tocarem...

Percebemos que a música podia ser um instrumento de inclusão. Eu amo a música desde de pequeno. A música me faz vibrar.

A carreira artística do Eduardo começou precocemente. Desde bebê ele já participava das rodas de samba da família e tomou gosto pela música. Aos seis anos foi modelo, sempre com um pandeiro na mão, em um desfile de modas em um shopping na região sul de Belo Horizonte. Ali percebi que o garotinho levava jeito.

 

Muito estimulado por seus primos, principalmente o Igor, e seus tios, principalmente o Maurício, Eduardo foi sendo despertado pela música. Todas as pessoas da família sempre o trataram como as demais crianças, com respeito e estímulo. Todos, e especialmente meus pais, sempre lhe passavam confiança e vibravam com a superação de cada desafio. A música foi uma ferramenta de desenvolvimento. Foi e é sua grande companheira.

 

Hoje ele toca 5 instrumentos (cavaco, banjo, pandeiro, repique e surdo) tem sua própria banda (Dudu do Cavaco e Banda) e também toca com o grupo Trem dos Onze.

Vi você, pela primeira vez, abrindo o show do Jota Quest no Chevrolet Hall em Belo Horizonte e, de lá pra cá, tenho sempre visto você dando shows em muitos lugares e muitas entrevistas em televisão, jornais e revistas. Como você enxerga seu sucesso e o seu reconhecimento como músico?

 

Adoro ser músico profissional e tocar para galera. Gosto de ser reconhecido e aplaudido. O palco me ilumina e jogo toda minha emoção para plateia. Gostar de me esbaldar nos shows e animar a galera. Adoro dar entrevista e ser conhecido pelas pessoas. Quero ir mais longe ainda.

 

 

Marco Túlio Lara, Dudu do Cavaco e Rogério Flausino

O projeto Mano Down sempre realiza eventos como caminhadas, encontros, calendários, dentre outros. Como vocês enxergam estas ações no processo de inclusão dentro da sociedade?

 

As ações do nosso instituto ao nosso ver é uma forma de dar visibilidade social para as pessoas com down. Mostrar para sociedade as capacidades e talentos. Incentivamos o empoderamento das famílias e a possibilidade de todos sonharem.

 

Porque criamos o Instituto Mano Down? Por acreditar no grande potencial das pessoas com down e saber que seu desenvolvimento depende de estímulos e oportunidades, bem como da participação ampla e irrestrita na sociedade. O Instituto Mano Down tem como um dos seus principais objetivos o desenvolvimento das possibilidades e potencialidades das pessoas com down para a participação social.

 

Missão: valorizar as potencialidades das pessoas com down e estimular suas habilidades, aptidões e competências. Desenvolvimento das possibilidades e potencialidades das pessoas com down para a participação social. PROMOVER MEIOS QUE FACILITEM O DESENVOLVIMENTO DAS PESSOAS COM SÍNDROME DE DOWN PARA A SUA INCLUSÃO PLENA NA SOCIEDADE.

 

O Instituto ainda será organizado. Atualmente trabalhos com palestras, debates, eventos, congressos, shows, cartilhas e campanhas para mostras as potencialidades das pessoas com down. Fazemos trabalho de acolhimento em algumas maternidades e temos uma rede de troca de informações.

 

Dia 01 de setembro formalizamos nossa associação: Instituto Mano Down. Cada vez que ando por esse Brasil percebo que a maior dificuldades das pessoas e empresas e respeitar as diferenças. Não existe MBA de diversidade humana. No mundo globalizado aceitar as diferenças e aprender com elas é importante para todas as empresas. Falamos disso nas palestras e de como ao invés de reclamar de um acontecimento que não planejamos podemos aprender com ele.

 

 

O amor de dois irmãos e a superação como combustível para motivar pessoas na carreira ou vida pessoal. Esse é o lote das palestras musicadas dos irmãos Leonardo e Eduardo Gontijo (Dudu do Cavaco), esse último com síndrome de Down, que têm sido ministradas com sucesso em empresas, instituições, faculdades e escolas espalhadas por todo o Brasil. No total, já foram mais de 70 palestras em cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Recife, Campinas e interior de Minas.

 

 

O público diversificado vai de adolescentes de escolas públicas à executivos de empresas.  O que não muda é o sentimento que fica:  emoção e a percepção que mesmo com as limitações pertinentes a todos os seres humanos é possível vencer barreiras e obstáculos. “As pessoas percebem isso ao verem a superação ao vivo. O Dudu ali, participando da palestra, tocando cavaquinho e percussão, falando em público, dialogando. Assim elas se questionam: se o Dudu consegue eu também consigo ”, observa Leonardo.

 

De acordo com ele, a ideia das palestras começou a partir do livro Mano Down que escreveu sobre a vida de Eduardo. Na publicação, ele relata fatos desde às dúvidas da família quando soube da  síndrome de Down do irmão, passando pela rejeição em algumas escolas, até a consagração de Dudu como músico. Segundo Leonardo, o objetivo do livro foi esclarecer um pouco as pessoas sobre o assunto. “Deu tanto certo que viramos uma referência. Principalmente para as famílias com casos de síndrome de Down. Passamos a ser procurados para esclarecer dúvidas e dar dicas sobre o tema”,  lembra ele.

 

A partir daí surgiu o Projeto Mano Down, que tem como  objetivo dar maior  visibilidade as pessoas com Down. “Assim, fomos lançando alguns produtos para nos sustentar e crescer como camisas,  livros e CDs. E as palestras tornaram-se o nosso produto mais importante”, afirma Leonardo. Segundo ele, atualmente são realizadas em média quatro palestras por mês. Essas variam de formato, que duram de 1h10 ou 35 minutos, dependendo do tempodisponível e do assunto a ser abordado. “Adaptamos o conteúdo. Os temas mesmo são variados. Mas todas trabalham inovação, superação, motivação, liderança, sonhos, conquistas e amor”, explica Leonardo.

 

Atualmente a dupla tem feito em média quatro palestras por mês. Os irmãos trabalham quatro temas: “O amor como combustível para superação de barreiras e construção de possibilidades”, “O amor como prevenção de acidentes de trabalho”, “O amor como base para a implantação do programa 5S” e “Adversidade e diversidade: superando a diferença e deficiências”. Segundo Leonardo, que também é professor universitário, tudo feito com carinho e preparo. “Estudamos e aprendemos muito sobre o que vamos falar. Por isso, creio que os feedbacks estão sendo tão positivos”, acredita. - Texto extraído do site Minas Inova.

Dudu do Cavaco e Jô Soares

Como surgiu a ideia do livro lançado agora chamado "Não importa a pergunta, a resposta é amor"?

 


Surgiu da vontade imensa de falar do meu amor pelo meu irmão. De desmitificar alguns assuntos e dar continuidade a nossa história.

 

Neste trabalho, abro espaço para as histórias do meu irmão Eduardo Gontijo Vieira Gomes a partir dos seus 21 anos. Caçula de uma família que já tinha três filhos, ele chegou para agregar. Se no nosso primeiro livro, “Mano Down: relatos de um irmão apaixonado”, falo sobre a sua chegada e seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento, neste “Não importa a pergunta, a resposta é amor (Mano Down: mais relatos de um irmão apaixonado) conto como o Dudu criou comigo o Projeto Mano Down, falo da nossa incansável maratona de palestras Brasil afora, do seu inquestionável aprimoramento musical, que o transformou no Dudu do Cavaco, e da nossa eterna luta para que o amor supere a exclusão.

Neste livro entro em assuntos da fase adulta, da autonomia, de sexualidade, de sonhos e conquistas e superações do meu irmão.

 

Com costumo falar: meu irmão tirou minha viseira. passei a ter menos invisibilidade social e aprendi que o preconceito tem que ser combatido com atitudes e iniciativas e não com o discurso do coitadismo, do por que eu?

Segue depoimento que fiz para ele em nosso segundo livro : ”Quer saber eu quero contar, aprendizados e lições na síndrome de down. Acho que resume bem.

 

“Tentei lhe dizer muitas coisas, mas acabei descobrindo que amar é muito mais sentir do que dizer. E milhões de frases bonitas jamais alcançariam o que eu sinto por você”. Escolhi essa frase de José de Alencar para começar este meu depoimento sobre Eduardo. Falar dele é muito difícil porque me faltam palavras e me sobra amor. Mas vou tentar.

 

E foi assim: quando eu pensava que seria o eterno caçula, você chegou. Tive que abrir mão do trono. No início, fiquei meio confuso e, rapidamente, aprendi a te amar mesmo assim. Quando eu imaginava que você não daria conta, você foi lá e fez. Quando pensava que teria que te ensinar, você é que me ensina sempre. Quando pensava em desistir, você insistia.

 

Quando sentia o preconceito por parte de alguém e desanimava, você sorria. Onde te julgam coitado, você se faz vencedor. Onde te julgam infeliz, você simplesmente sorri. Onde falam que você tem uma doença contagiosa, você contagia de amor o ambiente. Você, mesmo sendo mais novo, me fez crescer.

 

Antes sequer de sentar-se, você mudou minha postura. Sem andar, você me fez caminhar..Com todas as suas dificuldades, você me ensinou a resolver as suas e as minhas. Mesmo antes de falar sua primeira palavra, ensinou-me o diálogo.

 

Sua imaturidade fez-me um pouco mais maduro. E com sua dependência diária você me fez independente. Exalando pureza, me fez ser puro. Sempre desarmado e sem segundas intenções, você cativa qualquer pessoa com uma naturalidade impressionante. Você me ensinou a falar “eu te amo” sem medo.

 

A música te encanta e com a música aprendeu a encantar. Tocando, você me ensinou a admirar a música. Lutando, você me ensinou a lutar. Vencendo adversidades, me mostrou como vencer. Você é meu professor, meu mestre. É como eu queria ser.

 

Papo ruim não é com você. Estresse? Só se errou a nota de uma música. Exigindo mais atenção, me ensinou a dar mais atenção. Você me mostrou que quem tem limite é município e que sempre podemos ir além. Você faz das dificuldades uma alavanca. Enquanto o mundo fica nebuloso, você se apresenta transparente.

 

Você é a harmonia de minha escola de samba. Você faz tudo por amor, com amor, de peito aberto. Nosso amor é verdadeiro e nunca se esgota. Quanto mais nos damos, mais temos amor. Você mostra que não precisamos economizar no amor, pois ele não se esgota. Você me ensinou que o amor se multiplica dividindo. Você fala sem aspas e me ensinou a amar sem interrogação.

 

A você devo a ascensão da alma e a sensação de plenitude. Você é luz iluminando meu caminho. Seu simples respirar transmite amor, seu abraço transmite paz e sua simples presença me enche de Vida. Em tempos de Big brother, você, Grande Irmão, Você é o superbrother, o megabrother. Fez de mim ser humano forte e vencedor.

 

Diariamente procuro explicações sobre de onde vem esta fonte inesgotável de amor. Mas deixa para lá. O bom mesmo é viver ao seu lado. Te amo eternamente."

"Ele me despertou para urgência de mudarmos alguma realidade e que era preciso abordar o assunto não como coitadinho e sim como aprendizado e exemplo de vida." -Leonardo Gontijo

Eduardo e Leonardo Gontijo

Dudu e Leonardo, o que você diriam para os pais e as crianças que estão iniciando uma trajetória neste universo da síndrome de Down? E qual recado você deixam para os leitores da Revista Digital Tendência Inclusiva?

 

Sempre que podemos vamos aos hospitais e palestramos para as famílias que recebem um filho com down. Sempre falamos que é uma oportunidade de aprendizado. Acreditamos que com estímulo, amor e atitudes as pessoas com down podem realizar seus sonhos. Cada um dentro de suas possibilidades, como qualquer ser humano. Não existe receita, cada ser humano é único e tem seu tempo. Entendemos que a super proteção não pode ser uma desculpa para a falta de autonomia e para enfrentarmos os riscos e dificuldades de cada jornada.

 

Se jogue nesta jornada e aprenda. Temos certeza que não será uma caminhada reta, mas muito engrandecedora.

 

O recado que deixamos sempre é que demonstrar os sentimentos e lutar pelos nossos sonhos é o que nos move. E que a inclusão é uma caminho que precisa de todos, cada um com sua parcela de responsabilidade. Não existe receita, existe vontade de aceitar as diferenças e crescer com a beleza da diversidade humana.

 

O ostracismo, a invisibilidade social e a impossibilidade de viver seus sonhos. Ser tratado como eterna criança não ajuda nenhum ser humano. Não somos eternos. Por mais doloroso que seja, não somos provedores da felicidade de ninguém. Cada um tem que construir seu futuro. E também não podemos nos esquecer de que nenhum ser humano será feliz vivendo num casulo. A felicidade, para mim, é uma construção coletiva e interativa. Temos que prepará-lo para ser o mais independente possível e com uma autoestima elevada. Para ser feliz, uma pessoa com deficiência precisa, acima de tudo, de autonomia. Como sempre falo se meu pais definirem que não irei falar inglês não falarei. Precisamos de estímulo e de tratar as pessoas com down não como coitadinhas e carta branca.

 

Paara conhecer mais sobre o Instituto Mano Down: http://www.manodown.com.br/

 

Para conhecer mais sobre Dudu do Cavaco: http://www.dududocavaco.com.br/

Fotos e release: Arquivos do Entrevistado

 

 

por Adriana Buzelin em 25/10/2015

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