Lu Piras

Autora de vários livros, Lu Piras, lançou mais uma obra chamada Além do Tempo e Mais um Dia onde ela aborda fortemente a questão do universo da deficiência passando a responsabilidade de transmitir os conflitos e anseios de um homem em busca de ultrapassar limites físicos e emocionais tão complexos na ficção, quanto na realidade de muitas pessoas.

Lu Piras é advogada com experiência no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras Portugal e no Governo Regional dos Açores. 

 

De volta ao Brasil no ano de 2009, ela estudou Produção Editorial na  Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando suas aptidões na escrita se 

tornaram a sua principal vocação profissional.

 

No ano seguinte escreveu seu romance de estreia, a série de romance fantástico “Equinócio” (Ed. Dracaena). Seu terceiro livro, “A Última Nota” (Ed. Novo Século), foi escrito em parceria com Felipe Colbert e publicado em 2012.  Em 2014 veio o romance new-adult “Um Herói Para Ela” (Ed. Novo Conceito) e  em 2015, assinou contrato com a L&PM para a publicação de "Além do Tempo e 

Mais Um Dia", sua estreia no gênero sick lit, a ser publicado em agosto de 2015.

 

A autora é membro do grupo literário Entre Linhas e Letras, integrando um 

projeto de incentivo à leitura em escolas públicas e particulares. 

 

Lu mora no Rio de Janeiro com sua família e sua gata Bria.

 

 

Além do Tempo e Mais um Dia, sua obra mais recente, aborda fortemente a questão do universo da deficiência. Como surgiu o interesse pelo tema e qual a sua relação com esta questão?

 

Meu foco na literatura sempre foi o público jovem-adulto. Antes de começar a escrever Além do Tempo e Mais Um Dia, pesquisei temas relevantes para esse público-alvo, mas que não são abordados com frequência na linguagem desses leitores.

 

Inicialmente, a ideia da história seria abordar apenas a infância do protagonista, seus relacionamentos afetivos e sua trajetória de inclusão no ambiente estudantil. Mas, conforme a história de Benjamin Delamy, o protagonista, foi ganhando corpo, percebi a riqueza do enredo e da mensagem. Obriguei-me a uma pesquisa mais aprofundada, mais técnica, mais desafiadora e, de repente, a história já não estava focada somente no público juvenil-adulto. Com isso, me vi extremamente vocacionada para dar voz ao meu protagonista mais forte e denso, com a responsabilidade de transmitir os conflitos e anseios de um homem em busca de ultrapassar limites físicos e emocionais tão complexos na ficção, quanto na realidade. Para mim, o Benjamin existe. E torná-lo real, humano e vivo na imaginação do leitor, foi um dos principais objetivos ao escrever a obra. Aproximar a realidade de um deficiente físico da realidade de todos os leitores foi meu maior desafio. Acredito que a identificação dos leitores, deficientes ou não, com o Benjamin Delamy, é o que torna a história de Além do Tempo e Mais Um Dia a mais especial que escrevi. Foi graças a essa obra que passei a me interessar por questões de inclusão e acessibilidade.

 

A história de Benjamin, personagem central do livro, é antes de tudo o legado de alguém que literalmente correu em busca de seus objetivos. O que você queria transmitir aos seus leitores nesta história?

 

Exatamente isso: não há limites para a força que o coração humano carrega.

Ao ingressar no colégio, palco de muitos fatos que marcam a vida de Benjamin, a personagem sofre uma série de preconceitos. Como você avalia a situação da inclusão no país atualmente?

 

Pelo que vejo e ouço, é ainda aquém do ideal. Mas existem vozes importantes se fazendo ouvir. Na defesa dos direitos dos deficientes, cada conquista é apenas um degrau. Tudo acontece passo a passo, devagar, mas com esperança, força de vontade e fé. Como otimista que sou, acredito que a luta pela inclusão é, cada vez mais, uma luta de todos.

A relação entre Benjamin e Angelina é um dos pontos centrais da obra. Apesar de viverem dilemas completamente diferentes, a ligação e o amor dos dois são incrivelmente marcados pelo tempo e pelas relações familiares. Em sua visão qual o papel da família no livro?

O amor está presente na história o tempo todo. Assim como a família e os valores que transmite. Como escritora de romance busco transferir para meus personagens experiências, sentimentos, valores que, muitas vezes, propositalmente ou não, se confundem com os meus próprios. No caso de Além do Tempo e Mais Um Dia, eu realmente quis emprestar ao Benjamin, à Angelina e às famílias de ambos, a importância da união, da confiança e da amizade, fundamentos sólidos que eu tenho na minha família. Por mais que se preservem essas bases, conflitos sempre existirão. A história procura destacar que por mais que os caminhos sejam tortuosos, nunca estamos sozinhos. Quando existe amor, os obstáculos unem as pessoas. Benjamin tem na família um porto seguro, ao contrário de Angelina. Grande parte das características do caráter dele se revelam e se fortalecem através das sólidas e sempre presentes relações familiares. Já ela, apesar das relações conturbadas e instáveis com a família, desde a infância demonstra forte personalidade e suas virtudes são essenciais na formação do caráter do próprio Benjamin. O papel da família no livro não é o de definir caráter, que é próprio e essência de cada um, mas o de fortalece-lo.  

 

Você teve a oportunidade de viver fora do país, atuando no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal e no Governo Regional dos Açores. Como foi esta experiência?

 

Todas as minhas experiências contribuem para o meu repertório de histórias. E a vivência internacional trouxe, além de conhecimento e aprendizado, mais maturidade para o meu texto. A língua portuguesa é riquíssima. Desfrutei de uma identidade cultural que me permitiu conhecer e aprender mais sobre quem sou. A distância do meu país e da família também me mostrou a importância das referências brasileiras nos meus trabalhos na literatura. Isso sem falar na descoberta da saudade e de todo o sentimento que ela extraiu de mim, extremamente inspirador no momento em que comecei a escrever Equinócio – a Primavera, meu primeiro livro, assim que regressei ao Brasil em 2009.

 

Além de escritora, você é membro do grupo literário Entre Linhas e Letras, integrando um projeto de incentivo à leitura em escolas públicas e particulares. Conte-nos um pouco a respeito desta experiência e o que tem visto estando em contato com as escolas.

 

Em 2011, alguns escritores tiveram a ideia de se juntar para divulgar a literatura nacional. Tive a sorte de integrar quatro desses grupos, com diferentes escritores, de diferentes gêneros literários e com o objetivo comum de alcançar o público. O Entre Linhas e Letras é o único do qual faço parte hoje e é aquele que me permitiu me aproximar mais da realidade da literatura nas escolas. Através do nosso projeto de oficinas literárias, eu e mais oito escritoras fazemos palestras e atividades para aproximar as crianças e os jovens da literatura. É muito gratificante e surpreendente; o retorno é sempre positivo. Tomamos conhecimento de que as bibliotecas das escolas que visitamos chegam a ter lista de espera para alguns livros!

 

 

 

Dentre todas as suas contribuições à sociedade, qual delas você considera a mais relevante e por qual razão?

 

A verdade é que eu gostaria muito de fazer algo realmente relevante, mas minha pretensão, até hoje, só me levou a escrever livros. Ações como as oficinas literárias deveriam ser mais frequentes e se tornar rotina. Eu gostaria muito de comentar mais sobre os temas que meus livros abordam, porque acredito que a literatura tem esse papel de levantar o debate e trazer à tona questões que precisam de mais atenção. O escritor recluso é uma falsa ideia. A palavra do papel tem força e deve ser falada e ouvida para repercutir em ações. Estou aberta a convites para palestras, assim como meu livro Além do Tempo e Mais Um Dia está disponível para adoção em escolas. Ele foi recentemente adotado em uma conhecida escola de Porto Alegre, o que me encheu de orgulho.

 

Qual o seu sentimento ao pensar em sua contribuição para com tantas pessoas através de seus livros?

 

Gratidão. Sem os leitores, Benjamin e Angelina não existiriam. Meus livros não existiriam. É preciso que minha mensagem encontre e transforme o destinatário para meu trabalho valer a pena. Então, sou muito grata aos meus leitores, por me permitirem estabelecer com eles uma relação de intimidade que faz com que Benjamins e Angelinas existam para além das páginas do livro.

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Além do Tempo e Mais um Dia entre os mais vendidos 

Com tanto trabalho e atividades diversas sobra tempo para cuidar da beleza? Quais os principais cuidados que você tem com sua aparência?

 

O escritor é uma figura pública, mas eu não me vejo assim. Quem conhece a Lu escritora, quem lê meus livros, já sabe o suficiente sobre mim. Sou tímida, mas meu estilo não é. Gosto de cores fortes, de rendas, de transparências, de saltos altos, de maquiagem, de brincos grandes e acessórios que combinam. Procuro usar roupas confortáveis e estar sempre atenta a novidades, mas não curto modismos. Minha preocupação com aparência é apenas ser fiel ao que me faz sentir bem comigo mesma.

 

Qual a sua mensagem final aos leitores da revista digital Tendência Inclusiva e o conselho que você daria a pessoas com deficiência mesmo às famílias delas?

 

Primeiramente, agradeço ao Rodrigo Anunciato pelo convite, pela oportunidade que me concedeu de falar mais diretamente ao público da revista Tendência Inclusiva e de fazer ecoar a mensagem de Benjamin Delamy. Eu acredito ter criado um personagem que ultrapassa a ficção e que tem algo importante a dizer, assim como as várias personalidades do universo paralímpico nas quais mirei minhas pesquisas. O Benjamin espelha o deficiente físico que não se acomodou diante da adversidade e que superou seus medos para perseguir o sonho de se tornar atleta. Para Ben, o que o torna diferente é possuir a mesma qualidade que o faz ser tão especial quanto qualquer vencedor: a determinação de entregar-se, por inteiro, a um objetivo. Essa força do coração não é exclusiva dos atletas, mas eles, melhor do que ninguém nos ensinam a ouvi-la. Eu desejo ter conseguido transmitir essa força através do Ben, a cada leitor, deficiente ou não, que está em busca do seu sonho. Um conselho que Ben daria (e ele sabe melhor do que eu), é que você se entregue àquilo que acredita e ame quem estiver do seu lado. Sem reservas. Quando você alcançar a sua meta, saberá que não chegou lá sozinho. Não há sabor melhor do que compartilhar as vitórias.

 

Querendo conhecer mais o meu trabalho, estou nas redes sociais. É só pesquisar Lu Piras no Google. Estou no facebook, no instagram, no twitter e também atualizo meu site com novidades.

 

Obrigada aos leitores por me acompanharem até aqui. 

 

 

Contato: http://www.lupiras.com/

 

 

 

por Rodrigo Anunciato em 25/03/2016

 

 

Fotos: Acervo do entrevistado

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