Água - parte I

Nesta edição da BIO TENDÊNCIA, contamos com a participação da Eliana Sant’Anna, Bacharel Licenciada em Geografia pelo Instituto de Geo-Ciências – IGC – UFMG, que vem abordar um tema  atual e relevante que é a Água, com toda a sua riqueza e escassez.

Imagem retirada da internet via Google

“No meio do caminho das águas tinha o Homo sapiens”

 

Parece que chegamos à entrada do túnel que nos levará a um novo momento da espécie humana.

 

E se olharmos com muito cuidado, pode ser que aquilo, lá no final dele, seja uma luzinha. Agora nosso desafio é gigantesco: buscar o conhecimento, desenvolver a consciência e as habilidades, e modificar radicalmente nossos hábitos. E ainda, passar pelo túnel a tempo de não deixar a luzinha se apagar.

 

Ou mudamos, ou mudamos, ou sucumbimos...

 

Fomos, ao longo da história, nos distanciando da Natureza, como se não fizéssemos parte dela. Tudo, tudo que não é humano parece estar na Terra para servir nossa espécie, mesmo sob o risco de, muito antes do fim, não sobrar quase nada.

 

A Natureza, da qual fazemos parte, não distingue o homem de nenhum outro ser. Somos um dos fios na Teia da Vida. Cada qual tem seu papel definido, sem o qual o todo não funciona de forma equilibrada.

 Imagem retirada da internet via Google

Como tudo que compõe a Natureza, a água está conectada a todos os outros elementos da Terra: ar, rochas, solos, plantas e animais. E aqui um detalhe importantíssimo: se não somos ar, solo, rocha ou planta, somos todos animais. Se não tivéssemos nos esquecido disso, muito provavelmente, não estaríamos aqui presenciando tantos desequilíbrios socioambientais, dentre eles, a séria crise de escassez da água.

 

A água faz parte da constituição de todos os seres vivos, variando na sua quantidade. Nós, humanos, temos de 60% a 70% de água no organismo, circulando entre células, tecidos e órgãos, limpando, nutrindo, hidratando e participando de várias funções no nosso corpo.  Como sabemos, o surgimento da vida está relacionado à existência da água no planeta Terra, portanto cuidar da água é cuidar da própria vida.

 

Animais “sabem” disso, caminham dentro da vegetação fechada e encontram o riacho onde se refrescar. Percebem mudanças sutis na atmosfera e procuram abrigo, antes que a tempestade chegue. Nós, na medida em que fomos nos “civilizando”, fomos, entre outras, nos desnaturalizando, perdendo a noção do sagrado e nos transformando em uma espécie altamente predadora, em relação a todos os outros elementos do planeta. Toda uma riqueza em tecnologias usada sem a sabedoria necessária para garantir a sustentabilidade da vida e do planeta como um todo.

Mesmo na mata fechada, os animais sabem onde encontrar água. E nós?

Foto retirada da internet via Bing

 

Dentro do equilíbrio natural, a água tinha caminhos bem definidos entre os céus e a terra, atravessando rochas e solos, plantas e animais. Seu ciclo contínuo e previsível parecia estar garantido até o final dos tempos. E de certa forma ainda está, porém os ritmos, os tempos dentro deste ciclo foram violentamente alterados pelas interferências humanas sobre a Natureza. 

 

Assim como as plantas dependem da água para existir, o ciclo das águas também depende das plantas, em especial, das árvores para manter seu equilíbrio. São as raízes das árvores que perfuram o solo, facilitando a infiltração das chuvas que alimentam os lençóis d’água, que alimentam as nascentes, que originam os cursos d’água que matam nossa sede, fome e necessidade de energia elétrica. São as folhas das árvores que devolvem, para a atmosfera, parte da água do solo, na forma de vapor que se transforma em nuvens e chove, trazendo garantia da continuidade da vida e também da água em nossas torneiras. Essas mesmas folhas exalam substâncias que, na atmosfera, servem como catalizadoras de nuvens.

 

Simplificando é o seguinte: sem o “cheiro” das árvores o vapor ficaria flutuando sem virar nuvem. 

A água, através do seu ciclo natural está presente em tudo que compõe e compartilha o planeta Terra.

Foto de Ananda Sant’Anna.

Assim como as plantas dependem da água para existir, o ciclo das águas também depende das plantas, em especial, das árvores para manter seu equilíbrio. São as raízes das árvores que perfuram o solo, facilitando a infiltração das chuvas que alimentam os lençóis d’água, que alimentam as nascentes, que originam os cursos d’água que matam nossa sede, fome e necessidade de energia elétrica. São as folhas das árvores que devolvem, para a atmosfera, parte da água do solo, na forma de vapor que se transforma em nuvens e chove, trazendo garantia da continuidade da vida e também da água em nossas torneiras. Essas mesmas folhas exalam substâncias que, na atmosfera, servem como catalizadoras de nuvens. Simplificando é o seguinte: sem o “cheiro” das árvores o vapor ficaria flutuando sem virar nuvem. 

 

E o que fazemos com as árvores? Elegemos “representantes” que destroçam leis de proteção ambiental em favor do desmatamento. E o desmatamento voltou a aumentar depois disso. Há uma petição, para a criação da lei do Desmatamento Zero, circulando nas redes sociais, há anos, que nunca alcança as 1.500.000 assinaturas necessárias, porque nós não assinamos. No campo vemos áreas de matas e cerrados virando carvão, pasto, campos de monoculturas, barragem. Na cidade, as árvores são ilogicamente podadas, não para garantir seu melhor desenvolvimento, mas em função das redes de eletricidade. Consequentemente, essas árvores crescem desestruturadas e ainda novas caem com qualquer vento forte. Quando se adquire um lote, uma das primeiras providências é cortar as árvores para “limpar” o terreno. Além disso, é comum o pedido de retirada de árvores das calçadas, pelos próprios moradores, sob alegações diversas. Canso de ouvir que folha de árvore “suja” a calçada. Que lógica tem enxergar folha de árvore como sujeira e jogar toco de cigarro, copo descartável, papel e plástico na rua?

 

Se sem folhas e raízes as chuvas e os rios não existem, se o ciclo das águas precisa das árvores para acontecer, o replantio das florestas, cerrados, caatingas, mangues faz parte das soluções óbvias e urgentes. Como também é urgente o plantio de árvores nas cidades. E não vale plantar eucalipto ou outra espécie exótica. O equilíbrio da Natureza é muito frágil e precisa ser observado minuciosamente. Se a intenção é restaurá-lo, é importante escolher espécies nativas. E se o plantio for feito em área urbana, escolher espécies que convivam bem com a rede elétrica, quando crescerem; ou, o “sonho de consumo”: que as redes elétricas sejam subterrâneas, permitindo que as árvores cresçam livres daquele monte de fios que enfeiam e poluem a paisagem de nossas ruas. Praças, avenidas, ruas e quintais ganham qualidade estética e ambiental quando existem árvores. Árvores garantem e protegem áreas de mananciais.

 

Outra interdependência vital no ciclo da água é a sua relação com as rochas e solos. No caminho natural da água ela passa por dentro dos solos, aproveitando as aberturas feitas pelas raízes das plantas. No subsolo ela vai sendo filtrada e acumula quando encontra rochas impermeáveis. Formam-se os depósitos subterrâneos de onde surgem os olhos d’água, as nascentes dos córregos, rios e ribeirões. Lentamente a água guardada dentro do chão flui sobre as rochas da superfície, construindo o curso do rio.

 

E o que fazemos com os solos e rochas? Quando retiramos a cobertura vegetal, com o tempo, os solos ficam mais compactos e menos porosos dificultando a infiltração das chuvas. Sem infiltração, nada de lençol subterrâneo. Por isso tantos rios estão secando. A urbanização descontrolada acaba ocupando e destruindo áreas de nascentes e de recarga de lençóis, como os topos e encostas de morros. E o mais comum é após “limparmos” o lote, na cidade, recobrirmos a terra com cimento e pisos de cerâmica, bloqueando totalmente a infiltração da água das chuvas. O cidadão faz sua parte e o setor público completa o trabalho: pavimenta ruas e avenidas, “sanitariza” os rios transformando-os em canais subterrâneos onde jogamos nossos esgotos que, na maioria das vezes, são devolvidos à Natureza com toda a poluição criada no nosso dia a dia. Em muitas cidades brasileiras, entre elas São Paulo, que é atualmente um exemplo sério de crise hídrica, se não escondêssemos, nem poluíssemos os riachos, córregos e rios que cortam nossas cidades, teríamos água limpa correndo na porta de casa. Mas o modelo escolhido é construir a cidade para os carros e empreendimentos imobiliários e não para as pessoas, criar obras faraônicas e ir captar água em terras cada vez mais distantes.

Na agricultura moderna, o uso de adubos e agrotóxicos modifica a constituição química do solo. Atravessando o solo, as águas irão lavá-lo, carregando parte dos venenos para o lençol d’água, ou para dentro dos rios, poluindo-os. 

As árvores são um elo que transporta a água dos solos e rochas para o ar.

Foto de Ananda Sant’Anna.

 

Uma tecnologia simples, que já era utilizada em tempos antes de Cristo, foi transformada no Projeto Barraginhas capaz de trazer água para o lençol subterrâneo e mudar a vida no lugar onde é instalado.  Veja no vídeo.

Na mineração, toneladas e toneladas de solo e rochas são retirados do lugar de origem, para a extração do minério. Dá para imaginar o efeito dessa atividade sobre as águas? 

 

Cava de mineração no Vale do Aço, em Minas Gerais, onde os morros, a mata com toda sua fauna e flora, as nascentes e cursos d’água desapareceram para sempre.

Foto de Nakita Agostini Davis

Desorganizamos tanto o ciclo da água, que acabamos conseguindo aquilo que ambientalistas previam há décadas e a maioria de nós, cidadãos, empresariado e governantes, se recusava a acreditar ou considerar: o Brasil, país que possui as maiores reservas de água doce do planeta vive uma séria crise hídrica. Esse fato deixa claro o despreparo na gestão desta riqueza. E sua falta afeta diretamente a vida como um todo, além da geração de energia, a indústria e a produção agropecuária.

 

Podemos sempre usar as adversidades para abrir janelas de oportunidade, então, parafraseando Beto Guedes “vamos precisar de todo mundo”: dos governantes, idoneidade na tomada de decisões, maior responsabilidade, transparência e cuidado em relação ao abastecimento e saneamento; do empresariado, investimentos na implantação de tecnologias sustentáveis, especialmente de reuso de águas e captação de águas de chuvas o que, além de garantir melhor segurança hídrica, acaba refletindo positivamente nos lucros da empresa; do cidadão, a busca do conhecimento e o uso da criatividade para adotar e compartilhar soluções em sua residência, local de trabalho, bairro e município.

 

Existe atualmente, na internet, uma infinidade de boas soluções que podem ser adaptadas e implantadas no lugar onde vivemos. Vale a pena conferir e incluir algumas na próxima reforma da casa. A substituição de áreas de pátio por canteiros de horta ou jardim; o plantio e cuidado sistemático de árvores, a associação entre sistemas de reuso de águas e a captação de águas de chuva, para uso não humano, estão entre as mais eficazes.

Numa crise desta dimensão, além das ações individuais, precisamos agir coletivamente participando de associações de bairro e outros grupos de cidadania ativa como, por exemplo, os Comitês de Bacia Hidrográfica.

 

E aí? Vamos ou não entrar no túnel?

 

‘’Pra subir ao céu. Vou escalando as gotas. Dessa chuva que cai. Sobre a terra escaldante.’’  - Trecho da Música Ascenção – Emílio/Banda Djambê

 

(Eliana Sant’Anna)

Sobre Eliana Sant’ Anna

Foto de Mariana Carvalho

Arquivo pessoal de Eliana Sant’ Anna

 

  • Professora de Geografia e Coordeadora no ensino médio e fundamental.

  • Integrante da equipe de formadores do Centro de Aperfeiçoamento de Profissionais em Educação – CAPE -  Secretaria Municipal de Educação – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Coordenadora do Núcleo de I Ciclo do Ensino Fundamental.

  • Responsável pela capacitação de professores do ensino fundamental e médio em Geografia e Educação Ambiental. Desenvolvimento de materiais didáticos e paradidáticos.

  • Autoria de livros didáticos de Geografia e paradidáticos de Geografia, Ética, Meio Ambiente, pelas Editoras Dimensão, Miguilim, FTD, FAPI,Fino Traço.

  • Consultora no Projeto “Qualidade de Vida” - SMED/PBH.

  • Consultora no Programa “Energia Eficiente com Cidadania nas Usinas”. Desenvolvimento de materiais paradidáticos para alunos do ensino fundamental e médio – CEMIG.

  • Consultora no Programa “Semeando” (Educação Ambiental). Autoria e desenvolvimento de materiais paradidáticos para alunos do Ensino Fundamental. Autoria e desenvolvimento de materiais teórico-pedagógicos para professores. Capacitação de professores. Participação nas Comissões Avaliadoras nos Concursos de Melhor Experiência Pedagógica. SENAR-MG/FAEMG.

  • Consultoria  e elaboração de material didático no Projeto de Valorização das Nascentes Urbanas - Ribeirão Arrudas e Onça – Lume Ambiental/ Comitês de Bacias Hidrográficas do Arrudas e do Onça. 

  • Responsável pela elaboração de material didático para o Premio AcelorMittal de Meio Ambiente 2013 – Fundação AcelorMittal.

por Lícia Lima em 28/02/2015

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